Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Indie 2009 – DIA 04 (Parte 2 ou sobre Naomi Kawase)



– E finalmente não mais que finalmente, minha mais nova candidata a ídola do cinema. Não devemos perder a retrospectiva de Naomi Kawase. Autobiográfico, performático, documental, confessional. Tudo isso poderia se enquadrar no cinema da diretora japonesa de apenas 23 anos. Só que o termo arte já basta. Ela filma sua vida, dá novos olhares para alguns momentos dela, os compartilha generosamente com o espectador. Fica a pergunta: para quê? Qual o objetivo de Naomi Kawase ao se expor tanto? Porque não ficcionar? Se Naomi Kawase “filma para viver” (como nos diz trecho de uma entrevista publicada no catálogo do festival) ela não sabe viver sem compartilhar, sem olhar duplamente para a vida: pelos olhos de menina adotada porém amada incondicionalmente, grata pelo amor a ela concedido, pronta a indagar sobre as motivações que levaram seus pais adotivos a fazer tal ato, a cobrar erros de quem ama, e que por isso ferem sem querer… E o olhar da câmera, sempre objetivo embora transformador. Em cada filme uma nova relação é contada: o primeiro contato com o pai e tempos depois sua morte a ela comunicada, a culpa, o nascimento, a perda, o último suspiro. Assistir a pelo menos uma série desses filmes exibidos é obrigação pra quem gosta de cinema. E pra quem quer se surpreender com as possibilidades que ele permite como meio de expressão, de reflexão (no sentido de que através dele, o realizador e também o espectador se vêem). Em Céu, vento, fogo, água, terra (Kya Ka Ra A) seu pai morre e sem saber o que fazer ela tenta amenizar sentimentos tatuando o mesmo desenho que ele tinha nas suas costas. A conversa com o tatuador, e a cena final são coisas belíssimas. E em Nascimento e Maternidade (Tarachime) o nascimento do primeiro filho e a morte da tia-avó que a adotou. As conversas entre as duas, e a cena do parto (silenciosa, forte, viva) são inexplicavelmente tocantes. Recado dado. Imperdível.


Anticristo? Último dia de exibição no festival, mas os filmes de Naomi acabaram muito em cima da hora. Não deu. Vou providenciar…

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