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Buteco na Mostra: Entrevista com Murat Çeri

Diretor de "Em Meus Sonhos" rebate críticos que comparam o seu filme a "Milagre na Cela 7" (Netflix), e defende que filmes possam ter mensagens otimistas.

Buteco na Mostra: Entrevista com Murat Çeri, diretor de Em Meus Sonhos. Realizada por Leonardo Lopes, durante a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Buteco na Mostra: Entrevista com Murat Çeri em meus sonhos

AO TERMINAR DE VER EM MEUS SONHOS (Bir Düş Gördüm, Turquia, 2020), exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é impossível escapar do sentimento de que algo muito pessoal acabou de nos ser contado. A história do pequeno Tarik parece não ser uma mera criação ficcional do roteirista Murat Çeri, que também dirige, edita e produz o longa. Isso desperta grande curiosidade.

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“É a história da minha infância”, admite o cineasta ao Cinema de Buteco, esclarecendo, rapidamente, a maior das nossas dúvidas. Mas não era a única da entrevista, onde Çeri também fala das dificuldades de fazer um primeiro filme, da experiência de participar da Mostra, da recepção da crítica brasileira e de outros assuntos.

Buteco na Mostra: Entrevista com Murat Çeri. Confira a conversa completa a seguir!

“Críticas mais rasas apenas chamaram o meu filme de ‘a versão turca de ‘Milagre na Cela 7′”

Cinema de Buteco: Nas suas redes sociais, o senhor compartilhou reportagens e notícias de que Em Meus Sonhos estaria na Mostra de São Paulo e comemorou muito esse fato. Agora que o filme foi exibido no evento e os público brasileiro já o assistiu, como se sente?

MURAT ÇERI: Participar de um dos maiores festivais de cinema do mundo é um grande presente para alguém que fez o seu primeiro filme. Quando eu soube do grande interesse que existe em torno da Mostra de São Paulo, quis muito participar. É valioso encontrar gente que se conecta com meus sentimentos do outro lado do mundo, no Brasil, e estabelecer uma relação com essas pessoas através do meu filme. Espero estar em São Paulo no meu segundo filme.

CDB: Durante a Mostra, também vi muitos compartilhamentos seus das críticas e artigos de veículos brasileiros sobre seu filme. Você leu esses textos? Tem gostado da recepção da crítica brasileira?

MÇ: Eu li a maior parte do que foi escrito sobre o meu filme e algumas análises foram enriquecedoras, profundas o suficiente para me deparar com coisas que nem havia percebido nele. Outras, mais rasas, apenas o chamaram de “uma versão turca de Milagre na Cela 7 [produção recente da Netflix]”, por causa da presença de um personagem louco na trama e dela ser narrada pela ótica das crianças. Isso aconteceu porque não conhecem a cultura turca e a sua perspectiva da humanidade. Eu não assisti à versão turca de “O Milagre da Cela 7” ainda, mas posso te dizer isso: de acordo conosco [turcos], aqueles que perderam a cabeça por amor, ou que perderam alguém que amavam, são pessoas sagradas. Acredita-se que sejam serventes de Deus, a quem Ele abençoou com um tipo muito especial de proximidade. A essas pessoas são doadas comidas, roupas, e sempre há quem as proteja de qualquer tipo de mal. É o caso do personagem Akilli Zeki, no meu filme.

O tradutor deixou uma nota nessa resposta, que achamos pertinente reproduzir: em turco, tanto “Akilli” quanto “Zeki”, os dois nomes do personagem, são termos associados à inteligência, esperteza. A própria decisão de nomear assim o personagem “louco” de Em Meus Sonhos reflete, portanto, o apreço e admiração que o diretor e roteirista têm por ele.

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“Embora a cor, idioma e crenças das pessoas sejam diferentes, suas dores e fontes de alegria são as mesmas”

CDB: Em Meus Sonhos foi exibido e premiado em outros festivais antes de vir ao Brasil. Como é a experiência de levar o seu filme aos olhos do mundo e vê-lo sendo apreciado por outras culturas?

MÇ: O primeiro festival a que nós fomos foi o Scandinavian International Film Festival, na Finlândia, onde ganhamos dois prêmios. Depois, estivemos no Bangkok Thai International Film Festival, na Tailândia, onde vencemos mais um. Agora, estamos competindo na Mostra de São Paulo e, para mim, só participar dela já é um prêmio. O filme ainda competirá no Gilak International Film Festival, no Irã; no Asian Film Festival Los Angeles, nos Estados Unidos; no Jogja-NETPAC Asian Film Festival, na Indonésia; no Cheboksary International Film Festival, na Rússia; e no Dhaka International Film Festival, em Bangladesh. Citar os festivais não é apenas “fazer propaganda” do filme, por assim dizer. Eu acho importante notar que o meu filme foi reconhecido em países que parecem não ter relação e, no entendimento geral, são até mesmo opostos uns ao outros. Essa diversidade me deixa muito feliz. Mostra que, embora a cor, idioma e crenças das pessoas sejam diferentes, suas dores, fontes de alegria e os pequenos momentos de beleza são os mesmos.

“Eu sou um dos garotos da história”

CDB: A última cena do filme exibe uma dedicatória à sua mãe. A história contada pela trama é, de alguma forma, a sua?

MÇ:  É a história da minha infância. Eu sou um dos garotos da trama. As lições que meu avô nos deu, nossas brincadeiras, brigas, a amizade com Akilli Zeki, o filhote de burro que tentamos salvar… Quando eu era criança, também tentei salvar a vida de um burrinho que perdeu a mãe. Meu coração não podia aceitar que ele fosse sacrificado e virasse comida para os cachorros. Eu fiz de tudo para mantê-lo vivo, mas falhei. Essa é uma das maiores dores da minha infância. Acredito que, através de Em Meus Sonhos, eu imortalizei essa memória.

CDB: Além de dirigir, o senhor também escreveu, editou e produziu Em Meus Sonhos. Já que o filme conta a sua história, essa foi uma forma de garantir que ela fosse fielmente retratada?

MÇ: Não foi por achar que só eu sabia o melhor a ser feito no filme, mas para nos adequarmos ao nosso baixo orçamento com muito trabalho e suor. Com certeza, eu gostaria muito de ter um produtor e um editor melhores do que eu. Qualquer pessoa com boas intenções e um olhar distinto viria para somar.

“Odeio distopias. Também devem existir filmes que passam uma mensagem positiva”

CDB: Embora Tarik tenha vivido episódios muito tristes, as pessoas que convivem com ele parecem ter um senso de bondade natural para entendê-lo e ajudá-lo a superar esses traumas. Isso reflete a sua visão do ser humano? De que as pessoas tendem a fazer o bem?

MÇ: Odeio distopias. Hoje, não se pode ir a nenhum lugar sem usar uma máscara. Nós estamos vivendo uma distopia, vivendo o mundo sombrio que imaginamos nos filmes – mas pedimos por isso. Eu não sonho com esse mundo. Acredito que seres humanos são bons por natureza. Uma pessoa que pode chorar por outra é alguém que não perdeu sua essência. Você pode até me acusar de ser inocente nesse filme; não há assassinato, estupro, vingança, vilões ou lados obscuros. Você também pode me dizer que “as pessoas assistem a filmes porque estão entediadas. Se o filme deixá-las entediadas, por que deveriam assisti-lo?”, e você terá um ponto. Por outro lado, também devem existir filmes que passam uma mensagem positiva; a mensagem de que fazer o bem aos outros é o que nos torna humanos, dá sentido às nossas vidas.

CDB: Com a ajuda dessas pessoas e das próprias experiências que vive, o protagonista acaba reencontrando a felicidade. Em Meus Sonhos é um filme sobre amadurecimento?

MÇ: Eu não examinei profundamente nenhum tema específico no filme. Através de Tarik, tentei refletir o ritmo natural de uma vida provinciana. Nesse fluxo, existe a rotina do vilarejo, seus elementos culturais, relações humanas e, também, o mundo particular do personagem. A vida não é assim, afinal? Em Meus Sonhos é um filme que tenta capturar todos os aspectos dela. A vida faz estar vivo e o tempo faz amadurecer, e é por isso que a consciência de Tarik cresce durante o filme. O cinema também lida com as partes chatas da vida – eu tenho consciência disso. A diversidade de questões tratadas pela trama é uma escolha consciente.

 

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