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Buteco Na Mostra: Mosquito

Crítica do filme de João Nuno Pinto, em exibição na Mostra de São Paulo de 2020.

Buteco Na Mostra: Mosquito.

JOVENS SOLDADOS PERDERAM E PERDEM SUAS VIDAS atraídos pela crença de que defendem uma causa nobre: a defesa de sua nação ou a pacificação de um território. São muitos os falsos pretextos da guerra. Só conhecem o seu final aqueles que morrem, diria a frase “Tenho a guerra na mente e a pátria no coração”, proferida pelo soldado Zacarias (João Nunes Monteiro) a um superior do exército de Portugal. O bastante para antecipar o que está por vir. É quando conta essa história que Mosquito (Portugal, 2020) realmente funciona.

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Histórias de guerra

A verdade é que a história poderia ser de qualquer soldado. Porém, é inspirada naquela que viveu o avô do diretor, João Nuno Pinto. Em Pecados de Guerra, de Brian De Palma, militares norte-americanos estupram jovens vietnamitas. Aqui, um sargento orienta Zacarias antes de sua primeira missão em Moçambique, colônia portuguesa para onde é enviado: “Um homem não pode ir à África sem enterrar a minhoca na selva negra”. “De onde copiou esses versos?”, questiona o superior que ouve do protagonista a frase do parágrafo inicial. “Foram hastear a nossa gloriosa bandeira onde Judas perdeu as botas”, conta, em outro momento, um médico. Pouco a pouco, os velhos de guerra, menos inocentes, mostram o verdadeiro caráter do conflito. Abuso, desesperança, violência, destruição…todos os elementos da tragédia militar estão lá.

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Jornada

Enquanto vive na pele essa realidade, o jovem não experimenta mais qualquer luz. Mosquito é insistente ao mostrar isso: não bastasse a fotografia escurecida, a trilha sonora chega a exagerar para marcar a tensão. O roteiro, escrito a quatro mãos, faz esforços no mesmo sentido. Em dado momento, logo após o alerta de um comandante (“Cuidado com os pretos que levas”), Zacarias se mete num conflito com os escravos que o acompanham. Posteriormente, para acentuar as dificuldades da trajetória, a narrativa cria uma série de situações – do aprisionamento à fuga, das alucinações ao reencontro – que, espremidas no terceiro ato, incham o desfecho da trama. Prova que, tanto quanto pelo poder de narrar a deterioração, o filme também é marcado por alguns de seus excessos. Mais incômodos porque são dispensáveis.

A jornada bastava para narrar a ruína do militar. Inquieto e arrependido quando precisa executar pela primeira vez (e a câmera, em movimento, constrói essa impressão com perfeição), Zacarias é encaminhado até a completa desvirtuação de seus objetivos originais, e destruído física, moral e psicologicamente. Na interpretação inspirada de Monteiro, acertadamente nervoso por todo o tempo, o personagem chega a repetir as próprias informações em voz alta, num esforço para tentar preservar alguma sanidade. Aos poucos, até as doses de arrogância desaparecem – numa descaracterização da sua personalidade. As decisões de não traduzir os diálogos dos moçambicanos e alemães, bem como a de não distinguir o que é real do que é alucinação, colocam-nos ao lado e na pele do soldado. Experimentamos a sua destruição.

Veredito do Buteco

Em momentos que fazem 1917, de Sam Mendes, vir à mente – Mosquito é melhor -, a jornada de Zacarias parece próxima de chegar a algum final num reencontro com os seus companheiros de tropa. Só que não eram mais. Consumido pela guerra e por suas desoladoras situações, o soldado, outrora idealista, não guardava mais qualquer traço de humanidade, na qual se inclui a empatia. A mensagem está dada.

Buteco Na Mostra: Mosquito

(Portugal, 2020. De João Nuno Pinto) ★★½

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