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Crítica de Corra! (2017)

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O Cinema de Buteco adverte: a crítica de Corra! possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação

UMA FORMA EFICAZ DE CRÍTICA É USAR O SENSO DE HUMOR. Quanto mais sombrio e absurdo, melhor. Foi assim que o escritor Raphael Montes, por exemplo, falou sobre a questão de comer ou não carne em seu livro O Jantar Secreto. A partir de uma situação extrema, somos convidados a refletir sobre a nossa própria hipocrisia e de nossos amigos, familiares e conhecidos. Corra! (Get Out), primeiro longa-metragem dirigido pelo roteirista Jordan Peele, caminha por essa linha tênue para falar de racismo, um tema sempre muito atual.

Chris (Daniel Kaluuya) é um cara do bem que namora Rose (Allison Williams) e está prestes a conhecer seus sogros, para o desespero do seu melhor amigo. “Você não pode ir para a casa dos pais da sua namorada branca, negão!”, é o que ele alega. No entanto, Rose tranquiliza o seu namorado e diz que está tudo bem. Pois é. É o que todos dizem antes de apresentar os pais para seus respectivos ou respectivas. Chris logo descobre que algo muito esquisito está acontecendo e começa a temer pela sua vida.

Aliás, que ator excepcional é esse Kaluuya. Com uma expressão serena mesmo diante as situações mais ultrajantes, Chris não deixa de mostrar para o público que está estranhando muito o comportamento dos negros que convivem com a família e amigos de sua namorada. Destaque para seu trabalho com os olhos para transmitir todo o seu desespero ao ficar completamente fodido.

Transformando situações delicadas em pérolas absurdas de humor negro, Corra! deixa seu público angustiado. Quando Chris pergunta se os pais de Rose sabem que ele é negro, é num tom que deixa claro que ele sabe do risco que está disposto a correr e convida o espectador a compartilhar seu medo. Mesmo quando o alívio cômico (funcional) LilRel Howery não está em cena, existem situações que nos fazem rir (como a tia assediando Chris e querendo saber da sua potência sexual) ou nos incomodam profundamente (como a sequência em que um personagem negro aparece vestido de um jeito muito formal e agindo como se fosse um robô).

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Mesmo sem a qualidade técnica e força moral de O Nascimento de Uma Nação, Corra! compensa suas deficiências com um roteiro irônico e ácido que joga na cara de todos o problema de uma sociedade racista. Sem a menor cerimônia, Peele aponta a dificuldade dos brancos em aceitar o que é diferente e os seus desejos mais íntimos quando se trata de lidar com negros.

O roteiro se aproveita de um recurso assustador para desenvolver a história e o risco de vida para seu protagonista: Katherine Keener interpreta a sogra psicóloga especialista em hipnose. Ou seja, estamos falando de alguém entrando na sua cabeça para foder teu emocional e te transformar num fantoche sexual. Com um ritmo natural que vai apresentando eventos cada vez mais esquisitos para Chris (e nós, espectadores), Corra! se transforma numa verdadeira bomba relógio que nos faz esquecer até de piscar. Nada é gratuito ou acontece de repente. Mesmo as intervenções cômicas possuem o seu valor.

Presença garantida na nossa lista de melhores do primeiro semestre de 2017 (e provavelmente na lista de filmes de terror), Corra é altamente recomendado para quem quer encontrar formas inusitadas do cinema combater o racismo, além de ser uma diversão certa para fãs de “comédias” involuntárias com boas doses de suspense e terror. Não é a toa que o crítico Roberto Sadovski elogiou tanto em suas redes sociais. Filmaço!

https://www.youtube.com/watch?v=qtwZ8ZGhao0

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.