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Crítica: Ferrugem

Contém spoilers.

O bullying é um tema que tem sido discutido há muito tempo, mas com a chegada da internet e, especialmente, das mídias sociais, ele tem se intensificado cada vez mais; e mais rápido, com um alcance enorme. Por isso, é extremamente importante colocá-lo em pauta no cinema, TV, teatro, entre outras formas de arte.

Ferrugem (Brasil, 2018) é um filme que aborda o assunto de forma pesada e bastante realista. Qualquer pessoa que tenha sido estudante na era do cyberbullying ou pelo menos vivenciou algum caso do tipo de alguma forma pode reconhecer traços disso no drama de Aly Muritiba.

Dividido em duas partes, o longa mostra a vida de uma jovem do 2º ano do Ensino Médio desmoronar depois que um vídeo dela fazendo sexo com o ex-namorado vaza na web. Primeiramente, ele é compartilhado pelo WhatsApp, mas, em seguida, vai parar no Facebook e até mesmo em um site pornô. Obviamente, a garota sofre todos os tipos possíveis de zoação e preconceito dentro e fora da escola e acaba ficando sozinha nesse pesadelo, sem saber quem procurar. Ela também não consegue encontrar o ou a responsável pelo vazamento. Toda essa bola de neve a faz tomar uma decisão radical, a qual muda as vidas de todos à sua volta.

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É uma produção pesada porque aborda coisas sérias e polêmicas de forma objetiva e cru. O roteiro não fica apenas no cyberbullying, mas ainda discute sobre a criação de filhos, amizade e suicídio. São temas polêmicos e que dão pano pra manga, então até parece difícil conseguir englobar todos eles em um filme de 100 minutos. Mas Ferrugem consegue. O enredo deixa muito clara a velocidade com que conteúdos viralizam e alcançam milhares de pessoas, como que o comportamento agressivo e irresponsável das pessoas afeta a vida de alguém e como que a presença ou ausência dos pais afeta psicologicamente os filhos.

O mais tenso da produção brasileira é a maneira que mostra a indiferença e crueldade dos outros diante de um outro indivíduo em sofrimento. Pessoas que riem, fazem piada, olham torto, xingam de “vagabunda” e desrespeitam uma jovem que foi vítima de colegas sem qualquer tipo de limite e sensibilidade. Adolescente ainda imatura e despreparada emocionalmente para lidar com tamanha avalanche e que acaba se vendo envergonhada e sem saída diante de tanto maltrato e falta de compaixão.

Os diálogos ou até mesmo cenas em silêncio deixam tudo isso de forma explícita ao espectador. Por isso, sentimos um mix de raiva, tristeza, pena e revolta enquanto assistimos ao filme. Quando os créditos começam a rolar, vem um choque forte e aquela vontade de chegar para alguém e dizer “Precisamos falar sobre tudo isso que acabamos de ver”. Serve para qualquer um que vive neste mundo e sabe o quanto que o ser humano ainda precisa evoluir.

Premiado no Festival de Gramado de 2018 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Desenho de Som, Ferrugem é um must-see por tudo que se propõe a colocar em pauta e alcança com sucesso.

 

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