Crítica: A Hora Oficial

Que tal fazer uma crítica pesada à política e ao povo por meio da comédia? É isso que acontece no hilário A Hora Oficial (L’ora Legale, Itália, 2017).

O contexto da produção é bem conhecido para nós que acompanhamos escândalos diariamente: em uma pequena cidade da Sicília, na época das eleições, vemos o corrupto prefeito atual tentar ganhar os votos do povo dando-lhes comida e vinho. Ao mesmo tempo, uma parcela da população não aguenta mais o seu governo ruim e decide apoiar o candidato de oposição, um professor local que prega pela mudança.

Em função da aprovação baixa do povo e problemas com a Polícia Federal, o docente acaba sendo eleito e assume a prefeitura, cumprindo exatamente o que prometeu. Ironicamente, é aí que está a pedra no sapato da cidade: todas as ações do homem visam tornar o lugar mais seguro, tranquilo, organizado, sustentável e sem privilégios. Sim, tudo muito bom, mas não para as pessoas que votaram nele, pois estas começam a sentir na pele e no bolso as consequências de uma política 100% honesta.

O que vemos na tela é uma óbvia crítica ao ser humano, que, por mais que queira um mundo melhor, tem que abrir mão ou aceitar certas coisas para ver a mudança acontecer. Estamos realmente preparados pra isso? Os diretores Ficarra e Picone mostram, por meio de diversas situações, que a resposta é negativa. Vemos cidadãos fazerem coisas erradas na rua, levarem multas todos os dias por isso e acharem a cobrança errada, algo que não acontecia no governo anterior. Vemos o bar administrado pelos cunhados do prefeito ser fechado porque estava com a documentação ilegal. É claro que os dois acharam errado um parente fazer isso com eles, afinal, pessoas próximas de figuras poderosas estão acima da lei, certo?

Em umas das cenas mais marcantes do roteiro, algumas dezenas de pessoas que habitam a cidade siciliana tentam prever as próximas ações “inaceitáveis” do prefeito. Nesse momento, uma das personagens se levanta e diz “Está tudo no plano de governo dele, é só ler!”. Sem comentários.

Por mais que algumas partes sejam exageradas, a mensagem passada se aplica a nós de forma geral. A Hora Oficial é absurdamente sincero e crítico e, à medida em que o enredo se desenrola, vemos que a população e muito menos o sistema político não estão prontos ou melhor, não querem a justiça a qualquer custo (apenas se não lhes prejudicar). Damos boas risadas, tanto de humor quanto de tristeza no fim das contas.

 

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.