12 Anos de Escravidão

12 Anos de Escravidão

NÃO HÁ COMO MEDIR, COMPARAR OU CLASSIFICAR O SOFRIMENTO HUMANO. Abraçado a essa ideia, custo a acreditar que tanta gente tenha se incomodado com o fato de O Impossível – drama de sobrevivência ambientado na Tailândia durante e após a passagem do tsunami de 2004 – seja centrado em uma família branca, rica e linda, e não em alguns dos incontáveis e miseráveis nativos atingidos pela catástrofe. Ora, é evidente que os rostinhos de Naomi Watts e Ewan McGregor foram fundamentais para que o filme conseguisse financiamento e rendesse bem nas bilheterias mundiais, mas assim que a parede de água varre de forma violenta e impiedosa aquele cenário paradisíaco, etnias, posses, idiomas ou quaisquer outras características discriminatórias (para bem ou para mal) imediatamente perdem a importância. Além disso, embora foque nos dramas pessoais dos personagens centrais, o filme jamais ignora a tragédia coletiva – e não é à toa que (spoilers leves adiante), quando a família finalmente é retirada do país, a personagem de Naomi Watts surge observando devastada o cenário de destruição que aquela área se tornou, deixando claro que a satisfação de sair dali com vida e segurança é rivalizada pela angústia em relação ao futuro daqueles que estão sendo deixados para trás.

Gastei tantas linhas falando sobre o filme de J.A. Bayona por acreditar que aquela produção divide algumas interessantes semelhanças temáticas com este maravilhoso 12 Anos de Escravidão. Afinal (atenção: o restante deste parágrafo contém spoilers que, de certa forma, são dados pelo próprio título do filme. Então prossiga por sua conta e risco), quando finalmente reconquista a sua liberdade, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) deixa a propriedade rural em que viveu por anos sob condições inóspitas tomado não só por uma esperada sensação de ansiedade e inédito alívio, mas também pelos sentimentos de comiseração e impotência por ser obrigado a deixar para trás indivíduos fadados ao sofrimento contínuo – cena esta que exerce essencialmente a mesma função que o plano que encerra O Impossível e que descrevi no fim do parágrafo anterior. Da mesma forma, o simples fato de Solomon ser um homem negro livre, que é afastado da família e passa a ser tratado como escravo após cair em um golpe, torna o suplício enfrentado pelo personagem mais digno de pena que o de seus companheiros, submetidos ao regime escravocrata desde o nascimento?

12 Anos de Escravidão

Respeitando o pensamento que defendi na abertura desse texto, a resposta óbvia para a pergunta é “não”, embora seja inquestionável que as circunstâncias peculiares do arco do protagonista facilitem a identificação do público com o personagem. Adaptação cinematográfica do livro homônimo e autobiográfico de Solomon Northup, 12 Anos de Escravidão conta, como já antecipado, a história real de um homem livre que, acreditando na boa fé de dois homens entusiasmados com sua aptidão como violinista, planeja emprestar seu talento a uma trupe circense – e quando descobre as motivações escusas da dupla, Northup já está acorrentado em uma câmara escura, onde é forçado a assumir uma nova identidade – Platt – e passa a ser tratado e negociado como uma mercadoria.

Fincando o dedo em uma ferida ainda aberta da humanidade, Steve McQueen (Shame) não poupa o público de um reencontro visceral com alguns dos grandes horrores do regime escravocrata – e os maiores destaques nesse sentido são, sem dúvida, os dois longos planos em que o diretor testa os nervos do espectador, levando-os ao limite: aquele em que o protagonista precisa se equilibrar na ponta dos pés sob uma poça de lama para evitar o enforcamento e o outro em que a sofrida Patsey (Lupita Nyong’o) é praticamente mutilada, nas várias conotações que o termo pode assumir. Por outro lado, algumas passagens lamentavelmente alcançam resultados muito aquém da grandiosidade da obra – especialmente aquelas que envolvem o capataz vivido por Paul Dano, cuja composição demasiadamente carregada (e parcialmente herdada de seu papel em Cowboys & Aliens) enfraquece e compromete a participação do personagem na história.

12 Anos de Escravidão

Michael Fassbender, por outro lado, oferece um dos melhores desempenhos de sua carreira: abrindo mão de expressões ou comportamentos extremados, o ator constrói o caráter ameaçador do senhor de escravos Edwin Epps através da fala simultaneamente controlada e incisiva, do poder que ostenta e das eventuais recaídas do sujeito, nas quais a instabilidade e a impulsividade vêm à tona. Por outro lado, o badalado Benedict Cumberbatch, em uma participação menor, vive um escravocrata cuja postura mais ponderada e flexível, naquele contexto, é capaz de despertar até mesmo algum tipo de simpatia no público – diferentemente do talentoso Paul Giamatti, que não ganha tempo de tela suficiente para correr o risco de deixar seu cruel vendedor de escravos se tornar uma caricatura desinteressante. E enquanto a inexperiente Lupita Nyong’o rouba diversas cenas com suas expressividade, presença e segurança invejáveis, Brad Pitt surge como o maior erro de casting da produção: a figura do mega astro é carregada demais para cair bem no papel de um dos únicos indivíduos sensatos a dar as caras na narrativa, especialmente levando em consideração a importância e a particularidade da função que o personagem exerce.

Mas é mesmo Chiwetel Ejiofor (cujo nome finalmente aprendi a escrever sem consultas externas) quem acumula os maiores e mais merecidos elogios. Habituado a papéis de sujeitos mais atirados e imponentes, o ator consegue coordenar com precisão a fragilização inerente àquelas circunstâncias e a força necessária para sobreviver àquela dúzia de anos malditos. Nesse sentido, o roteiro de John Ridley também merece aplausos por conduzir de forma progressiva Solomon de encontro à persona de Platt, imprescindível para sua sobrevida naquele ambiente – isso sem mencionar, é claro, a sagacidade que Northup também precisa cultivar para lidar com situações repentinas de crise, como quando é confrontado na surdina da noite pelo amo Epps após a traição de um companheiro. Além disso, Ejiofor também é vitorioso nas cenas com maior carga dramática: além do arrebatador desfecho, o breve momento de catarse musical vivenciado pelo protagonista durante o funeral de um companheiro é particularmente tocante.

12 Anos de Escravidão

Tecnicamente impecável (a trilha discreta de Hans Zimmer agrada especialmente pelo aspecto camaleão do tema central, que se adapta admiravelmente bem às várias exigências emocionais da narrativa), 12 Anos de Escravidão ainda é capaz de, mesmo contando uma história ocorrida há mais de um século e meio, despertar reflexões sobre o presente: se hoje olhamos para todo aquele contexto com tanto espanto, como será que as várias divergências atuais envolvendo direitos humanos serão vistas pelas gerações futuras e o que está faltando para que avancemos mais rapidamente nesses quesitos? Isso, claro, se sua mente não estiver suficientemente impactada por este belíssimo trabalho.

12 Anos de Escravidão - Pôster Nacional

Título original: 12 Years a Slave
Direção: Steve McQueen
Gênero: Drama
Roteiro: John Ridley. Baseado no liro de Solomon Northup
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Paul Dano, Paul Giamatti, Michael Kenneth Williams, Garret Dillahunt, Rob Steinberg, Adepero Oduye, Kelsey Scott, Scoot McNairy, Alfre Woodard, Quvenzhané Wallis, Cameron Zeigler e Brad Pitt.
Lançamento: 21 de fevereiro de 2014
Nota:[cinco]

Eduardo Monteiro

Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui tentando convencê-los que Encantada é um estudo de personagens subestimado, que Ela Dança, Eu Danço 4 não é um desperdício total de tempo ou que o documentário da Katy Perry tem mais camadas que muitas bacias de sedimentação por aí. E plantando outras sementes de discórdia em terrenos férteis nas horas vagas.