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Crítica: A Chegada (2016)

O Cinema de Buteco adverte: a crítica a seguir possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

O FINAL DE 2016 FOI CONTURBADO COM AS MILHARES DE LISTAS DE MELHORES DO ANO e acabei sendo obrigado a abrir mão de escrever de alguns filmes. O Leozin Lopes tratou de aproveitar a oportunidade para fazer a nossa crítica oficial de A Chegada (Arrival, de Denis Villeneuve), mas eu não poderia deixar de fazer meus breves comentários sobre o melhor longa-metragem de 2016.

O planeta Terra recebe a visita de gigantescas espaçonaves extraterrestres em diversos pontos do mundo. Os militares norte-americanos recrutam dois estudiosos (Amy Adams e Jeremy Renner) para tentarem entender e traduzir as mensagens dos invasores e descobrir se eles são amigáveis ou não.

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Falando assim, a sinopse nos faz imaginar um autêntico plot de ficção científica. Temos naves espaciais, ET’s e a porra toda. Seria o suficiente para deixar qualquer maníaco por sci-fi excitado por horas. No entanto, a verdade é que A Chegada é um drama pesado disfarçado de ficção-científica. Lembrando bastante o excelente Contato, de Robert Zemeckis, a trama usa e abusa de elementos clássicos para contar uma bela história sobre escolher fazer a coisa certa.

Villeneuve é um diretor que está no radar de qualquer cinéfilo que se preze. Acumulando sucessos, como Os Suspeitos e Sicário, o cineasta é hábil na criação da expectativa no seu público. Depois de uma introdução com uma série de imagens de Louise (Adams) com a sua filha e de uma narração em off da personagem, descobrimos que algo estranho está acontecendo na faculdade em que nossa protagonista dá aulas. Os alunos ficam todos reunidos em frente da televisão ou com seus celulares, mas Louise não demonstra a menor curiosidade ou interesse com o que quer que esteja acontecendo. Tudo um grande truque do diretor para nos deixar confusos e acreditar que se trata de uma reação diante a morte de sua filha. Mas o detalhe mais legal aqui é que Villeneuve mostra as naves alienígenas apenas de relance e nos deixa com uma curiosidade imensa. Ponto para ele!

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A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson é uma das melhores coisas presentes na obra. Com temas delicados, o compositor conduz a maioria das cenas para envolver completamente o espectador. No entanto, chama ainda mais a atenção o trabalho da equipe de som, que desenvolveu um barulho mega esquisito para as criaturas chamadas de heptapod. A sequência em que Louise tem o seu primeiro contato com os visitantes é de uma tensão imensa, e parte disso se deve ao trabalho combinado da trilha sonora com a equipe responsável pelo design sonoro de A Chegada. O resultado pode ser comparado com o tema dos ET’s de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, por exemplo.

A lição de moral presente no filme é deixar uma esperança otimista de que as grandes potências mundiais poderão conviver em paz algum dia. Só que estou cagando e andando para essa parte utópica e quero falar mesmo sobre algo que está ao nosso alcance: o livre arbítrio e uma coisa poderosa chamada escolhas. Veja bem. Louise recebe uma verdadeira dádiva dos amigos de outro mundo e começa a ter premonições do seu próprio futuro. O público então percebe que tudo que assistiu nos minutos iniciais não havia acontecido ainda. Era o futuro. Mesmo sabendo do destino triste a que estava destinada, ela opta por viver essa experiência. Isso nos ensina muito sobre a vida. Apesar de poucas pessoas terem a chance de saberem exatamente o que irão acontecer em suas vidas (!!!), nós sempre podemos escolher entre experimentar um caminho que pode não gerar um final feliz. A simples ideia de poder sentir emoções é o suficiente para nos fazer suportar a dor. Cito aqui o Cidade dos Anjos, com o Nicolas Cage e a Meg Ryan. Depois de abrir mão de sua imortalidade para viver ao lado a humana por quem se apaixonou, o ex-anjo assiste a morte da amada sem poder fazer nada para impedir. Ao ser perguntado se ele faria a mesma coisa se soubesse do futuro, o anjo não hesita ao dizer que cada segundo ao lado dela valeu a pena.

A Chegada foi eleito como o principal longa-metragem de 2016, segundo a redação do Cinema de Buteco, e recebeu elogios rasgados de muitos amigos da crítica online. Esse é um emocionante retrato sci-fi dramático sobre coisas bem simples e básicas, mas que precisamos de uma invasão alienígena para poder reconhecer e valorizar. Filmaço!

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