A Criança

por Cristiano Contreiras

Ou seria Os Incompreendidos?

Eis um filme repleto de intensidade, arte realista de grande primor. A Criança é um excepcional trabalho independente, verdadeiro como poucos. Dirigido e roteirizado pela dupla de irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, trata-se de um singelo retrato naturalista que foca no cotidiano de um casal de jovens namorados que enfrenta problemas financeiros numa pequena cidade da Bélgica. Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François): dois imaturos, delinqüentes e típicos rebeldes que sobrevivem em meio aos pequenos furtos que cometem. Totalmente imersos na perspectiva do mundo particular, vivem fora das convenções – não têm emprego, nem mesmo perspectiva de um futuro qualquer. Quando nasce o filho do casal, eis que o roteiro, muito bem conceituado, ganha vigor: Como fazer para sustentar essa criança? Como lidar com tamanhas responsabilidades? É assim que este filme se determina, aborda um nítido exemplo de juventude contemporânea. Bruno e Sonia, ainda que apaixonados, não compreendem a responsabilidade de ter um filho. Ambos enxergam com grande oposição o significado da chegada desta criança – e é então que a problemática se evidencia: Bruno encontra no bebê uma forma de aplicar mais golpes, usando-o para obter lucros. Seria, de fato, a única forma de lidar contra a sobrevivência? Quão absurdo pode ser este ser humano? O filme retrata com calor humano a trajetória íntima desses dois casais que, obviamente, são sinônimos de uma juventude à beira do caos da irregularidade comportamental, diante de problemas e abalos emocionais.
O cuidado minimalista na direção dos irmãos Dardenne acentua-se em cada cena prolongada, sem qualquer uso de trilha sonora – cerca os dois personagens, intimamente, sem perder nenhum gesto ou mesmo diálogo verbalizado. Tangível, tão realista, consegue ter um grande efeito por colocar o psicológico com tanta evidência. A impressão é que nada ali foi prefigurado, mas sim um casal real tendo sua vida esmiuçada por uma objetiva irrefreável. Há um tom documental com o misto da ficção dramática e da poesia imagética – há sequências que as câmeras percorrem os atores em planos sem corte, demonstrando a habilidade da direção em destacar os movimentos corporais e da esfera interpretativa precisa. O tom de verossimelhança se concebe.

Típico estilo do tradicionalismo do cinema francês, pós “Nouvelle Vague”, percebe-se um tom natural escancarado: a câmera frenética foca os personagens nas ruas, persegue-os, espia e exibe seus contornos existenciais (a concepção do Dogma 95 se expressa?). Em sua forma, conteúdo e premissa: um filme sensível, mas cruel. A emoção surge dos momentos silenciosos do casal, no envolvimento e na percepção de um para o outro – a sociedade os ignora? Jérémie Renie exerce um desempenho soberbo como Bruno, o tom desolador da película é determinado por sua composição dedicada. E há bastante química dele com Déborah François. Aliada às belas imagens, os diretores Dardenne buscam uma história humana, com personagens limítrofes lutando para manter – ou recuperar – algo que perderam, geralmente um valor moral, embora metaforicamente esse seja representado por algo material. Se numa primeira leitura, a palavra “criança” se refere ao recém nascido que muda a ordem pré-estabelecida da vida de Bruno, o termo também se aplica à condição do casal. Os dois, na verdade, são duas crianças quase tão despreparadas para o mundo quanto o recém-nascido.

É um sensível filme providenciado com afinco pelas lentes dos Dardenne. Toca a condição humana. São dois perdidos na histeria do mundo moderno com luzes, tráfegos e rodeados por transeuntes. Há dor neste casal que aparenta infelicidade. Em Bruno, há um homem que se recusou a crescer: eterno adolescente amplificado no qual se condicionou a sobreviver sem querer integrar-se socialmente e membro produtivo da sociedade. Mas, todo ser humano há de crescer. O filme se abstém de julgamentos, em momento algum recrimina-se o casal – pelo contrário, há um olhar condescendente em torno deles. Todo ser humano erra, tem imperfeições – a reflexão vem dos atos de arrependimento. Eis um drama sensato, comovente e vital que retrata as mazelas sociais dos marginalizados e esquecidos pela sociedade – da juventude errante, perda da inocência e amor consistente.
L’Enfant (Bélgica/França, 2005)
Direção de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Roteiro de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Com Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet, Stéphane Bissot

  • Mariana

    Interessante a avaliação do filme. Quando assisti, não percebi quase nada da estética da obra (talvez porque não tivesse esse olhar informado), então o filme apenas incomodou pela crueza das situações apresentadas. Valeria a pena rever com esse outro olhar. Abraço.

  • João

    cris! bem vindo ao clube. a estréia não podia ser melhor com um texto sensacional falando deste filme fantástico. adoro esse filme.

  • Mirella Santos

    Ah, Cris seu texto é ótimo sempre, não conhecia esse blog, mas vou segui-lo e seja bem-vindo por aqui. Sucesso. Beijos

    P.S. Espero encontrar esse filme pra ver

  • Junnel

    Matou a Pau!!! Mandou muito bem com o post Cristiano! vou ver se assisto este filme!
    Seja Bem vindo

  • Saulo S.

    Cristiano, voce por aqui?!heheh
    Belo texto, ainda não vi o filme, mas li ótimas críticas sobre!

    abraço

  • ­bella

    🙂

  • 2T

    Pois é, estou com a maioria e ainda não vi o filme. Estou me sentindo obrigado agora…

    parabens pelo post e bem vindo ao buteco!!!

Redação do Buteco

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