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A Dama na Água

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MINHA HISTÓRIA COM A DAMA NA ÁGUA COMEÇOU NUM BOTECO, acompanhado do Joubert Maia (que para quem não sabe é um dos donos do Cinema de Buteco) durante um reencontro com os colegas da época de escola. Nós decidimos ir para o cinema depois de encher a cara loucamente e sermos provocados cruelmente por uma amiga querida (e que teve um final de noite bem mais divertido do que o nosso. Acredite!). Por acaso do destino, acabamos parando em um shopping e ficamos rindo sobre o quanto seria engraçado ir ao cinema bêbados. A obra de M. Night Shyamalan havia despertado um interesse anterior, mas naquele dia em especial ela foi escolhida por acaso. Da exata maneira que tantas pessoas comuns fazem quando vão ao shopping: simplesmente era o filme que estava começando naquela hora.

O efeito da cachaça ajudou bastante na hora de comprar a ideia da produção. Era tipo um conto de fadas de um cachorro gigante feito de grama querendo matar uma fadinha delícia que deixava todo mundo feliz com sua companhia. O humor idiota agradava ainda mais, pois não é todo dia que você tem a chance de encontrar um personagem sequelado e com os músculos definidos apenas de um lado do corpo. Só que o importante mesmo era aquele clima fantástico criado logo na introdução, e que me fez ter certeza de que, mesmo bêbado, aquela era uma história bonita e que merecia receber atenção.

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Anos depois, e sem ter cachaça alguma tentando roubar o lugar do sangue no meu corpo, revi A Dama na Água. Motivado pelas críticas negativas, meu lado Chapolim Colorado aflorou e me senti na obrigação de defender a obra. Os detratores de Shyamalan têm motivos de sobra para criticar o ego inflado do cineasta no filme (com razão), mas todos os trabalhos dele sofrem com a imensa expectativa do público em esperar por um novo O Sexto Sentido. A “reviravolta final” deixou de ser visto como um toque e se tornou em assinatura obrigatória por livre e espontânea pressão. A Dama na Água foi o quarto trabalho lançado após a história do moleque que via gente morta, ou seja, sete anos parece não ser tempo o suficiente para o público seguir em frente e aceitar as novas opções do diretor.

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Mas a verdade é que mesmo gostando da obra, seria um erro ignorar os seus vários defeitos. O roteiro tenta ser engraçado e fracassa miseravelmente, gerando mais sorrisos amarelos por seus momentos constrangedores do que risadas por suas piadas. Um espectador menos exigente pode até rir dos maconheiros, da barata enchendo o saco no começo, e mesmo da relação entre as personagens asiáticas, mas se tratam de humor rasteiro e bobo. Shyamalan brinca tanto com os estereótipos que sobra até mesmo para os críticos de cinema. Tudo bem que esse momento em especial não é um defeito, pois não há nada mais insuportável que uma pessoa arrogante, cínica, que se acha a dona da razão e do universo, e que seja incapaz de apreciar um filme idiota simplesmente por ele ser idiota. O personagem do crítico, sem dúvidas, é um ponto alto na trama, embora ao mesmo tempo seja mais uma demonstração da própria arrogância do cineasta, que além de permitir que o seu nome tenha destaque excessivo nas artes gráficas de seus filmes, ainda se aventura a interpretar um personagem com muitas falas e que é importante. Cadê a humildade, tio Shya?

É curioso notar semelhanças de A Dama na Água com A Vila. Dadas as devidas proporções, as duas obras se passam em um local fechado, alheio ao mundo exterior. Toda a ação acontece num espaço limitado, quase como se o mundo só existisse naquele lugar especial com tantas pessoas tão distintas e interligadas. Outros elementos comuns da filmografia do diretor também podem ser percebidos, como a presença de personagens infantis. Por se tratar de uma fábula, seria uma grande surpresa a ausência de um pirralho catarrento, mas precisava mesmo ter escolhido um pentelho mais chato que o Jaden Smith (Karate Kid)? E me pergunto se havia a necessidade de criar uma criança prodígio no roteiro. Eu odeio crianças prodígio. Uma curiosidade: o pequeno Joey (Noah Gray-Cabey) ficou famoso por interpretar o mutante Micah, na série Heroes.

Para quem (ainda) não sabe o tema do injustiçado A Dama na Água, se trata de uma linda história sobre uma mulher, Story (Bryce Dallas Howard), que aparece dentro da piscina de um condomínio e precisa da ajuda do zelador Cleveland (Paul Giamatti) para conseguir voltar para o seu mundo antes de ser assassinada por um cruel cachorro de grama gigante. É simples, bonito (especialmente no que diz respeito ao trabalho de direção de arte) e mágico. Uma autêntica fábula que deixou de ter vida apenas enquanto era contada por alguém e se tornou um filme para ser apreciado por pessoas de todas as partes do mundo. Às vezes parece que nós queremos perfeição demais em uma expressão de arte realizada por uma outra pessoa e ignoramos que as falhas também podem render bons momentos. Pelo menos, é assim que eu me sinto. Bêbado então, nem se fala…

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Nota:[tres]

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