Crítica: A Faca na Água, de Roman Polanski
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Filme: A Faca Na Água

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A FACA NA ÁGUA É POLANSKI ESSENCIALMENTE EUROPEU. Todo filmado em preto e branco, formado por apenas três atores atuando minimalisticamente, a história quase toda se passa num iate, onde um marido exibicionista e inseguro se sente ameaçado pela presença de um jovem misterioso e bonitão. A esposa é o alicerce; ela acalma os ares (e o esposo) o quanto pode e a trama se desenrola imperceptivelmente…

Andrzej e Krystyna, marido e mulher, estão a caminho da marina quando um jovem mochileiro aparece no meio da estrada e os dois quase o atropelam. Ele precisa de uma carona até a próxima cidade e, no fim das contas, convidam-no a ir passar o dia velejando com o casal em seu iate.

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Esse início acontece muito rapidamente e logo o trio já está na embarcação, num dia ensolarado (apesar do notável frio polonês). O marido, de estopim curto e machão, se sente incomodado pela presença sedutora e jovial e inicia uma competição velada com o rapaz sem nome para provar suas qualidades e menosprezá-lo. Este, por sua vez, não se dá por vencido e contra-ataca, de orgulho ferido e ofendido. É doloroso assistir Andrzej torturar o garoto enquanto a esposa, impassível e sensual, assiste a tudo limitando-se a reprimir o marido por vezes ou até a rir da cara do pobre rapaz (que claramente a atrai). O jovem, cheio de inocência e curiosidade, ora esquece-se dos maus tratos, ora obedece como um cão ao seu dono, mas guarda segredos e segue mantendo seu mistério. Afinal de contas, tudo o que ele queria era uma carona até a cidade mais próxima…

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A “faca na água” é o clímax do filme. O objeto literalmente cai na água e desencadeia uma série de acontecimentos rápidos e de alta tensão. Os ânimos se elevam e o clima, que estava quente, agora se esfria deixando-nos ainda mais temerosos. O jovem rapaz deixa de ser tão misterioso, a esposa mostra não ser frígida e demonstra emoções fortes, o marido se torna mais louco e tudo vai por água abaixo num final envolvente.

Não é meu Polanski preferido; certamente, é muito diferente dos sucessos de bilheteria de sua carreira – frutos de um banho hollywoodiano na carreira do ator e cineasta -, ainda mais para mim, fã que conheceu suas obras “de trás para frente” na linha cronológica. Mas é interessantíssimo ver a evolução de sua filmografia: quanta diferença se vê de Deus da Carnificina para A Faca Na Água! Diferentes, sim; mas singulares cada qual à sua maneira.

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Em uma hora e meia de longa-metragem, Polanski, em sua primeira película, combinou técnica vanguardista com um roteiro simplista carregado de discussões morais e sociopsicológicas interessantes e de suma relevância, demonstrando o potencial que tinha para se transformar num dos maiores cineastas contemporâneos.

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Título original: Nóz w wodzie
Direção: Roman Polanski
Produção: Stanislaw Zylewicz
Roteiro: Jakub Goldberg, Roman Polanski e Jerzy Skolimowski
Elenco: Leon Niemczyk, Jolanta Umecka e Zygmunt Malanowicz
Lançamento: 1962
Nota:[tresemeia]

Fernanda Minucci