A Garota do Café

Antes de ser o diretor dos quatro últimos filmes da saga Harry Potter, uma das mais lucrativas franquias cinematográficas da história, David Yates se dedicou, quase que exclusivamente, à TV. E, ainda nessa época, ele já obtinha êxito. Quando “A Garota do Café” foi indicado a vários prêmios Emmy em 2006, ele já havia dirigido a aclamada minissérie “State of Play”, da BBC.
Mesmo já acumulando certa experiência, fazer este filme, em particular, não deve ter sido das tarefas mais fáceis. O tema, o relacionamento de um homem mais velho com uma jovem misteriosa, permitiria deslizes fáceis ao retratar um romance (ou quase isso) tão incomum.
Ao invés de cair nos clichês, o roteiro de Richard Curtis (de “Simplesmente Amor” e “Quatro Casamentos e um Funeral”) prefere explorar a forma como uma vida pode mudar com o mais casual dos encontros.
Neste caso, fica claro, desde o início, que a vida de Lawrence (Bill Nighy) é vazia e desinteressante. Talvez por isso ele se encante tão facilmente por Gina (Kelly Macdonald e seu delicioso sotaque escocês), que conhece em um café italiano lotado. Ele é um dos assessores do Ministro da Fazenda, mora sozinho e come refeições prontas em frente à TV. Dela, pouco ou nada se sabe. Esse mistério vai, aos poucos, se esvaindo quando ele a convida para acompanhá-lo em uma viagem a Reykjavik, onde acontece a cúpula do G8.
“A Garota do Café” é um filme frio, no melhor sentido da palavra. Ele não é apenas sóbrio na escolha da paleta de cores, com locações na Inglaterra e na Islândia, mas também na relação entre os personagens principais e deles com os coadjuvantes. As conversas são, frequentemente, desconfortáveis e duras, muitas delas sem qualquer profundidade. Isto é proposital, pois ajuda a dar o tom da história e seu desenrolar.
Nighy e Macdonald, que já haviam trabalhado com Yates, têm um bom desempenho. É interessante comparar a performance desajeitada dele com personagens exibicionistas como em “Os Piratas do Rock” ou “Simplesmente Amor”.
Com bom ritmo e desenvolvimento, é uma pena que o final deixe um pouco a desejar, focando demais no discurso político e pouco na relação de Lawrence e Gina. Entretanto, embora possa não parecer ser este tipo de filme, “A Garota do Café” consegue arrancar até boas risadas.

  • João

    eu ADORO o bill nighy. o texto deu vontade de procurar o filme. vou fazê-lo.

Nathália Pandeló

Jornalista, diretora de conteúdo na Build Up Media e amante de música, cinema, literatura e TV.