Crítica: A Linha Fria do Horizonte | Cinema de Buteco
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Crítica: A Linha Fria do Horizonte

QUANDO SE PENSA NA MÚSICA FEITA NO BRASIL, é fácil citar o samba, o axé, o funk, o choro, o baião, o sertanejo. São ritmos que, regionais ou não, são associados a uma definição com que os próprios brasileiros aprenderam a definir como seus. Mas se não há uma identidade sonora que una as regiões do país – um atestado da nossa pluralidade -, quem não está no eixo Rio-São Paulo criou um som para chamar de seu. Explorar essa linguagem e musicalidade tão únicas é o que guia o documentário A linha fria do horizonte, uma viagem pelo cancioneiro que acaba por unir a produção musical do Rio Grande do Sul, da Argentina e do Uruguai.

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É a música do Rio da Prata, uma junção de influências que vem tanto da milonga e do tango quanto do folclore brasileiro e da tropicália. O que para muitos parecem fronteiras – políticas e principalmente linguísticas -, para um expressivo número de artistas foi visto como uma oportunidade de aproveitar a proximidade e trocar experiências e criações. Esse intercâmbio fica claro ao conhecer o trabalho de Vitor Ramil, que foi além de suas composições e voz impecáveis para criar a “estética do frio”, uma tradução sonora das planícies e da neblina de sua Satolep (ou Pelotas).

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Um denominador comum em quase todos os diálogos entre a música brasileira, argentina e uruguaia mostrados no filme, a trajetória de Ramil e da busca por uma música que trouxesse a identidade da sua terra ajuda a costurar essa história. Entrevistas com artistas como Marcelo Delacroix, Jorge Drexler, Daniel Drexler, Kevin Johanssen, Carlos Moscardini, Ana Prada e Fernando Cabrera tecem um panorama que hoje vai além do frio como recurso linguístico, como é o caso do subtropicalismo e do templadismo – movimentos que, embora pareçam se relacionar com o clima, estão mais intimamente ligados à paisagem que os cerca no sul do continente.

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Não era de se esperar que a trilha original do filme fosse caprichada. Alternando entre depoimentos e música, A linha fria do horizonte preza pela diversidade que é a própria definição das regiões por onde o longa transita. Da parceria de Ramil com o violonista argentino Moscardini, o filme vai a Madri conversar com o uruguaio Jorge Drexler sobre as suas influências da música brasileira e encontra o duo Zelito & Pirisca Grecco em uma comunidade de 10 habitantes num cantinho do Rio Grande do Sul. Tudo ao som de muita música.

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As imagens de apoio ajudam a completar esse panorama, trazendo recortes de uma movimentada Avenida 9 de Julho até a produção do mate para chimarrão. Sem se prender a clichês, o filme do diretor Luciano Coelho não foca na figura do gaúcho, apesar de abordar seus costumes e tradições. O filme busca uma linguagem que vai além da música folclórica, buscando a beleza nos regionalismos e o frescor de uma música urbana que, se é feita nos rincões do país, é também parte do retrato desse Brasil multicultural onde se encontram a neblina riograndense e o calor de Salvador, todos em um.

Nathália Pandeló

Jornalista, diretora de conteúdo na Build Up Media e amante de música, cinema, literatura e TV.