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A Origem

(Evitei o máximo de spoilers, mas só leia se já tiver assistido… )

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Se é o filme mais complicado de todos os tempos? Não. Seria então o melhor filme da carreira de sucessos de Leonardo DiCaprio e Christopher Nolan? Também não. Trata-se do hype do cinema em 2010? Talvez, mas isso não quer dizer que trata-se de um filme qualquer. Nolan conseguiu, mais uma vez, fazer um dos melhores filmes do ano e de que quebra deixou questões existenciais que podem competir de igual para igual com as filosofias de Matrix.
A Origem, por melhor que seja, deixou um gostinho meio amargo no fim das contas. Depois de toda a expectativa gerada com os trailers, material de divulgação e o mistério em torno do enredo da história (até pouco tempo atrás, só era de conhecimento público o nome do ator, o título e o diretor. NADA sobre a história e os trailers ajudaram muito em criar ideias na cabeça dos fãs), o filme deixou um pouco a desejar e não correspondeu a tudo que prometia. A consequencia direta é que, provavelmente, irei seguir os conselhos do mestre Pablo Villaça e me abster de qualquer trailer (teaser não é trailer) por um bom tempo.
Falando desse jeito, até parece que achei o novo trabalho de Christopher Nolan ruim. A verdade é que a primeira impressão não causou grande impacto. Gostei do filme. Assim como O Cavaleiro das Trevas e O Grande Truque, Nolan apresenta uma narrativa pesada que dá a sensação de que o filme esta se arrastando, já que ele nos força o tempo inteiro a prestar atenção nos detalhes. E justamente por necessitar de uma boa dose de observação e concentração, que se torna praticamente impossível avaliar o filme depois de assistir apenas uma vez. Em tempos de vacas magras no cinema mundial, são poucos os filmes que nos deixam com vontade de repetir a dose, e A Origem justifica o sucesso justamente por conta da enorme quantidade de pessoas que já assistiram ao filme por mais de uma vez.
O roteiro do filme é uma grande viagem psicológica, algo como o encontro de Matrix com Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e alguns episódios de Além da Imaginação (notei um certo ar retrô nas atitudes de DiCaprio, mas pode ser uma lembrança do excelente Ilha do Medo). Dom Cobb (DiCaprio) é um espião do mundo dos sonhos e recebe a oportunidade de fazer um último serviço em troca de poder viver novamente com sua família. O problema é que diversos acontecimentos inesperados complicam a missão e colocam todos os personagens em risco. Além do astro de Titanic e Os Infiltrados, o elenco ainda conta com Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Ellen Page e uma atuação incrível da (quase deusa) Marion Cotillard, que interpreta a atormentada esposa de Cobb.
Dessa vez o diretor usou e abusou de efeitos especiais e criou cenas que deixariam qualquer fã da trilogia Matrix, boquiaberto. Isso já é uma novidade no currículo de Nolan, que apesar de ter dirigido dois filmes do Batman, nunca se enveredou pelo lado pesado da ficção-científica ou de muitos efeitos impressionantes em seus filmes. Vale dizer que, pelo menos duas sequências vão ficar marcadas na memória do espectador: Ellen Page (Juno) colocando as ruas de cabeça para baixo; e a sensacional sequência de luta de Joseph Gordon-Levitt, onde o ator desafiou a gravidade e se firmou nos corredores, teto ou chão de um hotel. Não dá nem para piscar ou fechar a boca durante a cena. A trilha sonora também merece destaque, principalmente no final, quando DiCaprio olha para seus companheiros dentro do avião e depois caminha apreensivo pelo aeroporto, com medo de ser preso e impedido de reencontrar os filhos. Chega a ser (quase) emocionante.
O grande legado de A Origem será a infinidade de discussões acerca da filosofia de invasões de sonhos e, principalmente, o significado daquele desfecho. Como já mencionei, desde Matrix um filme não causa tanto impacto e teorias. Algo como o final de Lost, sabe? Nolan soube utilizar o mundo dos sonhos de uma forma curiosa e inteligente, que em momento algum chega a prejudicar o entendimento da história, e o resultado foi um dos melhores filmes de 2010.

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