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A Primeira Noite de um Homem

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UM CARINHA ESPINHENTO, baixinho, esquisito, antipático e inquieto. Este é Benjamin Braddock, vivido por Dustin Hoffman em A Primeira Noite de Um Homem. O papel lhe rendeu uma indicação – mais que merecida – ao Oscar.

A trama é construída em cima de diversos detalhes marcantes, a começar pela abertura do filme mostrando Benjamin chegando de viagem, descendo a esteira do aeroporto ao som de “Sound Of Silence” de Simon e Garfunkel, enquanto os créditos aparecem. Já nesta cena inicial, a expressão de incômodo de Ben é clara.

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De volta para casa depois de um período de estudos acadêmicos, seus pais fazem uma festa para celebrar sua formatura. Orgulhosos e endinheirados, os pais pronunciam aos amigos todos os feitios de Ben durante a universidade, como as notas altas e a participação ativa em grupos importantes da instituição.

Ben não queria papo, não estava a fim de se misturar e nem ter que suportar toda aquela recepção cheia de pessoas interesseiras que só sabiam falar de negócios. Entre eles, os Robinson, pais da linda Elaine, que só falavam em um possível namoro entre o rapaz e a garota. Não demora muito para Benjamin se tornar grosseiro com uma das convidadas, a lendária Sra. Robinson. Ela provocou mesmo, insistiu em puxar assunto com o entediado e tímido rapaz, até ele cair na armadilha.

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Sra. Robinson é bonita, sedutora e está a procura de aventura. Provocativa, Sra. Robinson – que ganhou até uma música com seu nome – acaba deixando Ben em um beco sem saída, colocando à prova a sua coragem e sexualidade.

Entre idas e vindas, Ben parecia não ter planos para sua vida após a universidade. Não queria trabalhar na empresa do pai e nem se estressar. Somente Elaine mudaria a atenção de Benjamin e o faria sair do sério. Só que, depois do envolvimento de Ben com a mãe da moça, os pais de Elaine desaprovaram qualquer relacionamento entre os dois.

O filme, lançado em 1967, foi um dos destaques na premiação do Oscar do ano seguinte, vencendo na categoria de Melhor Diretor (Mike Nichols), recebendo indicações para Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Atriz (Anne Bancroft), Melhor Atriz Coadjuvante (Katherine Ross), Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia.

Tudo no filme é único e marcante, a começar pelas características dos personagens principais. O rosto de Ben sempre carrega uma expressão de incômodo unido a um olhar que demonstra certo medo. A Sra. Robinson tem jeito de vilã, com olhares sedutores e principalmente, desafiadores. Elaine é sempre meiga, com carinha de inocente, mas que mostra sua indecisão e medo de fazer a escolha errada através dos olhares. O restante dos personagens parece estar sempre rindo de Ben, como se o mesmo fosse motivo de chacota o tempo todo.

Assim como a expressão de Ben, a fotografia transmite muito bem esta sensação de incômodo através de tons amarelos em cenas ensolaradas – a maioria delas. Os movimentos de câmera também falam por si só; tanto as aproximações, quanto as rejeições, são tão bem expressas e naturais entre os personagens que o espectador se sente em meio à toda tensão que acontece na cena.

O filme foi de uma importância imensa para o Cinema dos anos 1960. Parte da chamada Nova Hollywood, este clássico foi dirigido por um jovem diretor que, assim como os outros de sua geração, buscavam novas fórmulas para a sétima arte. Grandes romances, finais felizes e protagonistas vividos por galãs perfeitos já não eram atributos suficientes para se realizar um bom filme. Era necessário se aprofundar na realidade para se tornar convincente e gerar identificação entre o espectador.  A obra retrata a geração pós American Way Of Life, que já não se interessava tanto por uma vida perfeita aos padrões americanos, mas sim, a busca da paz para todos. A Guerra do Vietnã estava em seu auge, assim como a contracultura dos Hippies. Outros grandes títulos como Bonnie e ClydeChinatown Taxi Driver pertencem à mesma geração.

Romance bagunçado, protagonista esquisito e comédia estranha: estes são os elementos que fizeram A Primeira Noite de um Homem se tornar um filme tão simples, perturbador e inesquecível. O final é um caso de amor à parte com o espectador e ficará para sempre gravado na memória dos que puderem apreciar a este longa metragem tão especial. Vale mencionar que a trilha sonora composta por Simon e Garfunkel é maravilhosa, mas vai ser difícil tirá-la da cabeça depois de assistir ao clássico.

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Título original: The Graduate
Direção e Produção: Mike Nichols
Roteiro: Buck Henry e Calder Willigham
Elenco: Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katherine Ross
Lançamento: 1967
Nota:[quatro]

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