Crítica: Além da Eternidade (Always), de Steven Spielberg
Críticas de filmes Drama Romance

Além da Eternidade

por Marcos Henrique*

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FALAR SOBRE ALGO QUE JÁ ACONTECEU é sempre mais fácil. Assim como criticar/analisar um filme prestes a completar 25 anos de seu lançamento. Por isso, o que está escrito logo abaixo é uma forma de ilustrar pontos da trama de uma obra que não caiu tão bem nos braços da crítica e de alguns fãs na época. Mas o fato é que este filme, em momento algum, é entediante o bastante para não se apresentar às futuras gerações de cinéfilos ou não.

A trama gira em torno do bombeiro piloto Pete Sandich (Richard Dreyfuss) que após salvar a vida do amigo Al (John Goodman) enquanto apagavam um incêndio numa floresta com seus aviões, morre numa explosão, deixando sua namorada Dorinda (Holly Hunter) apenas com a dor de sua partida. Mas Pete, quando morto, recebe a chance de ser o anjo da guarda de um jovem piloto e isso acaba envolvendo a sua bela namorada.

Tendo em vista o detalhe de que Pete se torna um anjo da guarda, Always levanta questões interessantes, pois quem não tem ou já não teve a curiosidade de saber se – depois de partirmos – haverá ou não vida após a morte? Ou melhor, uma segunda chance de terminar o que nos foi tirado “antes” do tempo? E havendo “vida”, como esta será (Pete indaga sobre seu sofrimento)? Se realmente existe, seremos as mesmas pessoas de quando vivíamos? Usaremos as mesmas roupas? Teremos as mesmas paixões? As mesmas inquietudes? Poderemos influenciar as pessoas ao nosso redor? Positivamente ou não? Questões extremamente relevantes neste filme que é muito mais fácil criticá-lo negativamente que procurar entendê-lo. E é aqui que Spielberg e sua equipe apresentam uma obra muito bela do ponto de vista estético e que acaba salvando algumas bobagens do roteiro de Jerry Belson e Diane Thomas (será que alguém achou graça da cena em que Goodman suja o próprio rosto com graxa?). Claro que Spielberg não deixa de se dedicar aos momentos “água com açúcar”, principalmente por fazer mais uma parceria com o excepcional John Williams (o discurso final de Dreyfuss na pista de pouso/decolagem é prova disso). Williams utiliza a trilha sonora em momentos tocantes, mesmo que seja apenas a música de um toca fitas (cena da dança entre Dorinda/Ted e Dorinda/Pete) e é interessante ver que Spielberg evita colocar qualquer nota musical nos momentos de tensão quando Pete está prestes a morrer, deixando a cena apenas com o barulho dos aviões e o queimar da floresta (a fotografia, que tem auxílio de John Toll é muito bela). A montagem de Michael Kahn é eficiente, evitando que o filme se torne cansativo (o roteiro é um pouco).

Roteiro esse que, baseado em A Guy Named Joe de Chandler Sprague, de forma alguma nos afasta do casal protagonista. Dois malucos de carteirinha que parecem ter nascido um para o outro. Pete com seu jeito brincalhão encara as situações complicadas de maneira “tranquila” (ele assovia em momentos de tensão) e Hunter confere à sua Dorinda Durston uma carente, doce e querida mulher, mas durona no segundo seguinte se necessário (vide cena em que os bombeiros se aproximam de sua roupa jogada nos degraus e na cena em que ela insiste para Pete dizer que a ama, enquanto ele reluta). Peguei-me sorrindo quando ela disse a Pete: “Kiss me and fly!”. Holly Hunter é adorável.

Ainda sobre o ponto mais forte da obra (sua estética) devo mencionar algo que não é novidade: Spielberg é um grande conhecedor da linguagem cinematográfica (embora esteja pecando ultimamente). Aqui ele emprega situações futuras de maneira lógica e plausível. A fotografia de Mikael Salomon é muito eficaz e empurra o filme para frente, tornando-se um grande elemento narrativo. Repare como o tom azul (sempre sombrio) cerca Pete e Dorinda (Pete porque vai morrer e Dorinda por estar envolvida diretamente a esta morte). O tom parece até como um sinal divino.

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Aqui envolvendo o seu avião, que explodirá em algumas horas (Pete apenas como uma sombra em meio ao fato)!

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Nesta cena logo no começo do filme Pete já aparece como um futuro anjo da guarda, observando Dorinda enquanto ela se diverte.

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E como Spielberg faz bem as transições utilizando elementos futuros da narrativa (o fogo e o céu).

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Para em seguida introduzir Audrey Hepburn (em seu último filme) como Hap! E mais uma vez, as imagens falam por si (repare como ela também veste o branco de Dorinda).

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Por falar em branco, vamos aos figurinos de Ellen Mirojnick que é um ponto chave na trama! Mais especificamente tratando-se de Dorinda, que usa as cores brancas na presença de Pete (ele usa um roupão com detalhes de flores). A direção de arte é competente aqui, pois dentro da casa de Pete e fora há flores, o que pode ser uma pista lógica sobre o futuro dele.

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Continuando, Dorinda trajando preto após a morte do amado…

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Branco outra vez, tentando se livrar do seu passado (mas seu telefone é preto)…

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Amarelo e salmão antes e depois de se envolver com Ted (Brad Johnson). E mesmo após esta mudança, Dorinda ainda se vê presa emocionalmente a Pete (repare nas letras abaixo).

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Espero que esta análise tenha sido útil aos que assistiram ao filme e não conseguiram ver nada além de um melodrama barato. E como disse anteriormente é mais fácil criticá-lo negativamente que procurar entendê-lo. Rotulá-lo assim não apenas seria um modo estúpido de enxergá-lo, mas um desinteresse no aprendizado sobre o que foi esta obra de Steven Spielberg (Ghost, de 1990 que o diga).

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Direção: Steven Spielberg
Elenco: Richard Dreyfuss, Holly Hunter, John Goodman, Brad Johnson e Audrey Hepburn
Lançamento: 1989 (22 de dezembro)
Nota:[tres]

*Marcos Henrique, 29 anos, Sertãozinho/SP. Professor de Educação Física por opção e cinéfilo de coração! Maluco por Kubrick, fã de filmes norte-americanos e ops, apelidado de “Pinga” durante a faculdade!

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