Crítica: Aliados (2016)

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Aliados possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

ROBERT ZEMECKIS É UM DOS MEUS CINEASTAS FAVORITOS. Hoje em dia existem tantos produtores ruins espalhando gonorreia cinematográfica por aí que é preciso abraçar nossos ídolos com unhas e dentes. Zemeckis é um daqueles artistas que conseguem transitar de um gênero para o outro com talento, eficiência e uma sensibilidade ímpar, mesmo quando aborda um romance com dois protagonistas que demonstram uma frieza fora do comum, como é o caso de Aliados (Allied, 2016).

Escrito por Steven Knight (responsável pelo roteiro de Senhores do Crime, de David Cronenberg; e roteiro e direção de Locke, com Tom Hardy), Aliados trabalha um romance com tudo ao seu favor. Ou você acha mesmo que uma trama romântica que se passa em Casablanca e conta com dois espiões interpretados por Brad Pitt e Marion Cotillard poderia dar errado?

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O trunfo maior da narrativa é ter subvertido a expectativa de quem viu o trailer. Quem acompanha o meu trabalho no Cinema de Buteco deve saber que me recuso a assistir trailers, já que eles fodem a experiência de todo mundo contando demais da história. Parecia que o filme inteiro seria sobre Brad Pitt tentando inocentar a sua esposa, mas isso só começa a acontecer na metade final do longa-metragem. A melhor parte é que não entram no clichê de fugirem e serem perseguidos, já que o conflito é encerrado brevemente com o suicídio de Marianne.

Muitos amigos reclamaram da falta de “calor” e química entre o casal. No entanto, é preciso considerar que estamos falando de um casal de espiões. Precisamos esquecer que Brad Pitt contracenou com a sua ex-esposa Angelina Jolie na comédia Sr. e Sra. Smith, uma obra sobre um casal de espiões que recebe a missão de matar um ao outro por suas respectivas agências. Ali temos uma paródia exagerada que serve como metáfora para relações amorosas complicadas. Aliados não tenta fazer humor e oferece uma dupla de profissionais que simplesmente se apaixona, sem que isso afete suas características pessoais.

Há um grande teor de sensualidade no envolvimento de Max e Marianne. Desde o primeiro momento em que trocam olhares, já podemos sentir a tensão sexual tentando afetar o desempenho profissional de cada um. Num divertido diálogo durante o café da manhã, ele tenta deixar claro que transar pode foder com a vida da pessoa. Enquanto ela retruca provocando com a quantidade de vezes que ele falou “foder”. Essa tensão explode durante a sequência em que eles finalmente “fodem” dentro do carro enquanto esperam uma tempestade de areia passar.

Zemeckis criou dois filmes, praticamente. O primeiro é sobre um romance proibido entre dois agentes secretos que se conhecem no local mais romântico do mundo para o imaginário dos cinéfilos; enquanto o segundo é sobre as suspeitas de um marido, quase que numa alusão à insegurança de um indivíduo num relacionamento. Ao invés de uma possível traição conjugal, a desconfiança surge quando a esposa é acusada de ser uma espiã infiltrada. Max começa a ser consumido por perguntas que não consegue responder e se arrisca muito até encontrar a verdade.

Aliados é um romance de guerra imperdível e uma aula sobre como relacionamentos frios não significam necessariamente a falta de amor. Mais ainda, é uma bela história sobre como somos capazes de perdoar os erros de nossos pares, justamente por sentirmos um amor incondicional que passa por cima de qualquer coisa.

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