Alice Não Mora Mais Aqui

ÍTALO-AMERICANOS, MÁFIA, GÂNGSTERES, TIROS, violência, morte. Quase tudo o que marca as obras de Martin Scorsese está fora de Alice não mora mais aqui, terceiro longa de ficção do diretor. Esta é uma história de dor, superação, amor e dedicação. Praticamente um libelo feminista em plena década de 1970. Scorsese declarou (no livro Conversas com Scorsese) que Alice seria uma tentativa de fugir de sua história, uma prova de que poderia fazer um filme de gênero e dirigir mulheres.

Alice (Elen Burstyn) é uma mulher espirituosa e divertida procurando seu lugar no mundo. Seu marido, Don (Billy Green Bush), é um cara violento e possessivo. Seu filho, Tommy (Alfred Lutter III), é um pré-adolescente que começa a questionar a dominação do pai. Alice é como tantas mulheres por aí: mantêm um casamento que a faz infeliz apenas por achar que não conseguiria viver de outra forma. Quando Don morre num acidente de carro, ela está com 35 anos, tem pouco mais de dois dólares no bolso, um filho de 12 anos para criar e muita vontade de fazer acontecer. É quando ela decide se mudar. Vende tudo o que pode, coloca o filho no carro e vai atrás do seu sonho: ser cantora em Monterey, Califórnia.

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Em suas andanças com Tommy, muita coisa vai acontecer. No caminho, em Phoenix, ela encontra Eberhart (Harvey Keitel), e volta a sonhar com uma vida a dois. Um incidente a faz fugir para Tucson, onde começa a trabalhar em um café. Lá conhece Flo (Diane Ladd) e David (Kris Kristofferson), enquanto Tommy fica amigo de Audrey (Jodie Foster, com jeitão de menino), garota que acha tudo estranho (“Weird” é a palavra que a menina mais pronuncia). Os três novos personagens trazem mais transformações para a vida de mãe e filho.

A relação de Alice com Tommy é divertida. Ela é muito espirituosa, e percebemos como o filho, ao longo da trama, vai pegando o pensamento rápido da mãe, passando a se expressar como ela. Morando espremidos em quartos de motéis baratos, eles conseguem estabelecer uma convivência harmônica e alegre. Um cuida do outro e oferece apoio, carinho, colo, bons momentos. É por Tommy que Alice corre atrás de seu sonho, mas sem culpar o garoto ou transferir para ele qualquer responsabilidade por sucessos ou fracassos.

Ela sabe bem quem é e o que quer. Para conseguir um emprego como cantora, Alice tem que parecer sexy, mas se recusa a “dar uma voltinha” a pedido de um possível empregador. Ela procura constantemente se manter sozinha, lutando com dignidade. Alice escolhe seu caminho e o segue com firmeza. Ela quer igualdade, não desempenhar mais o papel que tinha em seu casamento. Uma conversa com Flo, no banheiro do café, é bem esclarecedora sobre esse ponto. Definitivamente, Alice não mora mais aqui.

Ellen Burstyn venceu o Oscar de melhor atriz pelo filme. Ele também foi indicado nas categorias de Melhor Atriz Coadjuvante (Diane Ladd) e melhor roteiro original. Scorsese tem uma filmografia intensa e diversificada, com várias obras-primas. Pena que não tenha produzido mais filmes como este.

Poster Alice Não Mora Mais AquiTítulo original: Alice doens’t live here anymore
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Kent L. Wakeford, Robert Getchell
Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster
Lançamento: 1974
Nota:[quatro]

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