Amor Pleno

por João

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É INJUSTO PENSAR EM AMOR PLENO, ÚLTIMO FILME DE TERRENCE MALICK EM RELAÇÃO À ÁRVORE DA VIDA, SUA PENÚLTIMA E CELEBRADA PRODUÇÃO. Não é adequado também dizer que Amor Pleno é uma espécie de continuação (inferior) daquele filme. Começo o texto com estas pontuações por que é o que tenho lido/ouvido desde que o filme começou a ser visto, e não pode existir erro maior quando se lê a filmografia de Malick não considerar que todos os seus filmes são de certa maneira, continuidades de uma mesma abordagem, que portanto se torna recorrente em suas películas, em forma de discurso e em forma de poesia.

Malick já levou seus questionamentos à guerra, à colonização dos Estados Unidos, ao começo dos tempos, e agora os leva à uma história de amor que encontra resistência e plenitude em meio a encontros e desencontros de personagens que experimentam o amor de formas completamente diferentes, mas complementares: a maneira de se relacionar com o amor, e com a crença de que este sentimento pode ser redentor em contrapartida à condição solitária do homem aparece nos quatro personagens principais.  O amor é só mais uma das inúmeras forças da natureza, que colabora, assim como a água, o ar, a luz e a escuridão, para que a ordem do cosmos se mantenha, contrabalanceando forças e movimentos, colocando tudo em seu lugar, fazendo com que as pessoas se coloquem em direção àquilo que desejam, movendo-se pela vida – pelo menos segundo Malick, suas imagens, seus personagens e as narrações que contam sobre os sentimentos e percepções.

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Ao longo de Amor Pleno fica claro que Malick e sua “autoralidade” são capazes de alcançar novos matizes, de acordo com o contexto em que é explicitada sua maneira de falar e de ver o mundo.  Não há tema que fuja deste fio condutor primordial em seu discurso: somos seres limitados; somos parte da natureza; assim como a natureza temos um fluxo e um movimento de vida e morte do qual não escaparemos; temos uma maneira característica de se colocar em relação a esta realidade – que nos faz ser humanos; o amor nos move em direção à totalidade das possibilidades que a vida pode nos oferecer.

Em direção à maravilha, à dádiva que é a vida: é neste sentido que invariavelmente são levados os personagens de Malick em Amor Pleno. Nem sempre este caminho irá de encontro à felicidade. Como no sermão do Padre Quintana (Javier Bardem) em que ele diz que nossa responsabilidade neste mundo se resume à escolha. Para aquele que se furta da possibilidade de escolher, de arriscar, não há perdão. Seres criados para escolher, com acertos e erros, são os humanos, e a única segurança que temos é na ideia de que independente do caminho, o fim do trajeto é o bem.

Há novamente uma abordagem religiosa, não só pela presença do padre, mas por esta tese defendida de que tudo se ajusta de acordo com uma força maior e transcendente, à qual não temos acesso, embora ela se exerça em cada um de nós. Pode-se concordar ou não com esta defesa de que o cosmos possui uma ordem própria ou que um dos nomes desta ordem é Deus. Mas há que se saber que o diretor empreende esta defesa mais como um ponto de vista poético e filosófico do que como defesa desta ou daquela religião.

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Até porque é na imagem e na voz do Padre vivido com recolhimento e dor por Bardem que a religião é colocada em uma situação frágil, não por suas deficiências e limitações, mas por sua pretensão em entender o todo e de perseguir na imagem de Deus algo que explique a miséria humana. Como Padre, Quintana é um referencial para a comunidade onde vive – sobretudo um referencial para as dores e sofrimentos de cada um. Em contato com esta realidade, ele se pergunta onde está Deus, ou para onde foi aquele amor que fez com que a vida religiosa fosse uma opção no passado, já que este sentimento parece ter desaparecido. Observem a cena do casamento, onde, sem palavras e sem a narração em off tão presente no filme, vemos na feição de Bardem a incredulidade no ritual que ele mesmo celebra: o amor acaba, ou não cumpre as promessas de felicidade plena – palmas para o ator, sempre espetacular e especialista nas expressões mínimas que dizem muito mais que palavras.

Sobre o tro de personagens formado por Neil (Ben Affleck), Marina (Olga Kurylenko) e Jane (Rachel McAdams): é interessante perceber como Malick prefere esconder ao invés de revelar as motivações mais profundas de cada um, como ele faz com que os personagens sejam vistos através de rastros. Como a falta de explicação para as motivações causa um incômodo gigante, mas se pensarmos nesta sensação em relação ao filme não há outra maneira de se sentir em relação a eles: na mesma medida que o espectador busca lógica e explicações claras, os três lovers de Malick procuram por aquilo que os salvará da possibilidade da infelicidade: o amor. É também o amor uma força da natureza. É em torno dele que vivemos, e não se fala aqui (apenas) de amor romântico, ou de amor pelo outro, mas de amor como energia que impulsiona para a vida. Que faz mudar, que faz enfrentar medos e indecisões, que leva a lugares desconhecidos, a conquistar o novo.

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Lembro-me da última sequência de O Novo Mundo, quando Pocahontas diz finalmente saber onde sua “mãe” vive, quando está junto a seu filho e ao homem que lhe ensinou o que é realmente o amor. É desta ordem que acaba sempre se restabelecendo em nós que Malick fala em seus filmes, é o caminho até ela que ele filma, e que seus personagens vivem – sempre hesitantes e temerosos. Não se sabe como alcançar a felicidade e a plenitude até o momento em que ela se faz presente (o que também lembra a última cena de Árvore da Vida). Em Amor Pleno os personagens não encontram o que procuravam (afinal “amar também é correr o risco do fracasso”, nos diz Marina/Kurylenko). Continuarão sedentos. E talvez isto desperte o sentimento de insatisfação no espectador. Não foi meu caso. Belas imagens e uma bela trajetória. Mais um projeto instigante de Malick.

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Título original: To the Wonder
Direção: Terrence Malick
Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem
Lançamento: 2012
Nota:[quatroemeia ]

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.