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Crítica: Armas na Mesa (2016)

Sempre durante a temporada de premiações aparece um longa-metragem que eu não sabia nada a respeito, assisto sem nenhuma pretensão e depois penso: “Cara, que filme incrível!” O representante desse ano é Armas na Mesa (Miss Sloane) novo filme de John Madden (Shakespeare ApaixonadoO Exótico Hotel Marigold) que promete surpreender não só pela qualidade, mas também pela repercussão que está causando, que pode ajudar a entender os tempos loucos que estamos vivendo.

No filme acompanhamos a lobista Elizabeth Sloane (Jessica Chastain) que decide liderar a principal campanha de controle de armas nos Estados Unidos como uma forma de se desafiar, mas quando seu antigos chefes começam a se tornar adversários cada vez mais difíceis de combater, ela decide ir mais longe do que jamais foi para ganhar, o que pode ter consequências irreversíveis para ela e para as pessoas ao seu redor.

Primeiro preciso dizer que reconheço que provavelmente a falta de expectativas contribuiu para a minha reação tão positiva do filme, mas depois de pensar bastante a respeito consegui fazer uma análise mais crítica da obra em geral e posso destacar os prós e contras (apesar de continuar achando que existam mais prós do que contras).

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O roteiro, por exemplo, é um grande pró. Apesar de não ser excelente e se apoiar em alguns clichês típicos (o plot twist no clímax, apesar de surpreender de início, fica bem previsível depois que você para pra pensar com calma a respeito), ele mantém o ritmo intenso e não te deixa perder o interesse no filme em nenhum momento. Mas o principal triunfo do roteiro não é necessariamente a qualidade, e sim a coragem e a ousadia. Controle de armas é um assunto delicadíssimo para o público americano, e o roteiro deixa claro a sua mensagem a favor da medida, e se não bastasse ele ainda ataca incisivamente a Constituição americana, apontando em vários momentos que ela está velha, é passível de erros e precisa ser revisada o mais rápido possível, afirmação que para grande parte da população americana é uma afronta e um desrespeito sem precedentes, e isso está se refletindo na bilheteria do filme no país, que está sendo considerada uma das baixas de todos os tempos (foram arrecadados apenas 1,8 milhão de dólares no final de semana de estréia).

O outro grande pró do filme é o elenco. Para um filme independente e de orçamento pequeno, Armas na Mesa tem um time de atores excepcional. Muita gente talentosa honrando sua reputação: Mark Strong (Kingsman: Serviço SecretoO Jogo da Imitação), Michael Stuhlbarg (A ChegadaUm Homem Sério), Alison Pill (Meia-Noite em ParisScott Pilgrim Contra o Mundo) e Gugu Mbatha-Raw (Black MirrorDoctor Who) estão todos igualmente bem em seus papéis, e de quebra ainda temos a participação especial do sempre excelente John Lithgow, que recentemente ganhou o Critic’s Choice por seu papel como Winston Churchill na série The Crown, e que é um dos mais cotados a ganhar o Emmy esse ano.

E claro, a subestimada Jessica Chastain, que mesmo com todas as boas performances do resto do elenco, não deixa de carregar o filme nas costas (em um bom sentido, claro), dando tudo de si e fazendo de Elizabeth Sloane uma das personagens mais relevantes dos filmes lançados esse ano até agora (não à toa o título original é Miss Sloane). Infelizmente ela tem pouquíssimas chances de ganhar o Oscar (ou até mesmo de ser indicada), mas vamos torcer para que ela mantenha o bom trabalho nos próximos trabalhos e continue chamando atenção, porque talento é o que não falta para essa mulher.

Além da previsibilidade do roteiro em alguns momentos, outro contra é a direção exageradamente segura de Madden, que também contribui para deixar o filme em geral simples e previsível. Mas mesmo assim ainda há cenas muito boas, como a abertura onde Elizabeth explica para o público sua opinião sobre a função de lobista, e o já citado clímax que mesmo sendo clichê não deixa de surpreender (eu fiquei surpreendido pelo menos).

Armas na Mesa é um ótimo drama político, com ótimas atuações e que nos faz refletir sobre a sociedade não só pela delicadeza do assunto abordado mas também pela sua curiosa repercussão, que prova o quanto os valores de muitas pessoas estão distorcidos e precisam ser repensados. Uma ótima surpresa que eu recomendo fortemente.

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