As Horas | Cinema de Buteco
Críticas de filmes

As Horas

por João

11991 As Horas

(The Hours). De Stephen Daldry. Com: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, John C. Reilly, Ed Harris, Claire Danes, Stephen Dillane, Miranda Richardson, Toni Collette, Allison Janney e Jeff Daniels.

Não é fácil fazer escolhas… Derradeiras ou não, elas envolvem outras coisas, que ultrapassam a nós mesmos. Porque não há como viver sem se relacionar com o outro, e sem que eles também sejam influenciados por nossos atos. Por exemplo: imaginem uma dona de casa, que vive uma vida que não lhe pertence, mas que é obrigada a viver já que tem um papel a cumprir. E o que dizer de uma escritora, extremamente talentosa e com um trabalho já reconhecido, mas que vê sua vida roubada em função de uma doença mental que já não pode controlar? E uma mulher bem sucedida, que embora transpareça ter total controle da sua vida (autocontrole também) no fundo vive em função de um passado que não pode voltar, e com medo de um futuro que não pode controlar. Se a escolha por continuar a viver, ou não dessas pessoas se dá, não é sem conseqüências para aqueles que estão a sua volta (independente da forma como essa escolha se dará. Afinal, pode-se fugir da vida ou escolher continuar vivendo de várias formas).

“A única realidade que me pertence inteiramente é meu ato”, já disse Simone de Beauvoir. Isso é extremamente trágico se levarmos isso às ultimas conseqüências. Escolher é a nossa condição. A única. Tudo mais é fruto de nossa criação e… escolha! Estamos fadados a isso (agora parafraseando Sartre).

As Horas, de Stephen Daldry fala exatamente sobre isso. Mas o que faz dele um filme tão fantástico é a forma como estas coisas aparecem. A vida das três mulheres (vividas genialmente, como já era de se esperar por Julianne Moore, Nicole Kidman e Meryl Streep) se encontram de acordo com suas escolhas. E isto é potencializado pela direção, pelo roteiro e pela edição, que fundem imagens, rimas visuais, auto referências, trilha sonora (linda, espetacular, que se desenvolve sempre que a trama se engendra), atos que se repetem, consequências diferentes, (os beijos,as festas, os ovos quebrados, as mortes, as vidas que seguem).

É um filme extremamente delicado, feminino (daí também vem muito da sua beleza), emocionante, desde a primeira cena pela tristeza, até a sequência seguinte pelo virtuosismo, falas lindas e doloridas. É um filme triste no fim das contas, mas isso só se deve pelo fato de que, ao vê-lo nos vemos também. Aí nunca é fácil mesmo.
Comecei a ler o Miss Dalloway, refência da história, e mesmo com algumas passagens sendo referenciadas no roteiro, destaco esta do livro. Recomendo também.

“(…) ‘É possível morrer’. Laura se indaga, de repente, como ela – ou qualquer pessoa – pode fazer uma opção dessas. É um pensamento afoito, vertiginoso, meio sem corpo – que se anunciou em sua cabeça, de modo vago, mas distinto, como uma voz estalando numa estação de rádio distante. Ela podia decidir morrer. É uma noção abstrata, luminosa, nada mórbida. Quartos de hotel são onde as pessoas fazem coisas como essa, não é verdade? É possível – talvez até mesmo provável – que alguém tenha posto fim à sua vida bem aqui, neste quarto, nesta cama. Alguém que disse: ‘Basta, chega!’; alguém que olhou pela última vez para estas paredes brancas, para este teto branco e liso. Percebe então, que ao entrar num hotel, a pessoa deixa as particularidades de sua própria vida e entra numa zona neutra, num quarto branco e limpo, onde morrer não parece tão estranho (…). Ela acaricia a barriga. ‘Eu nunca’. Diz as palavras em voz alta, no quarto limpo e silencioso : ‘Eu nunca’. Ela ama a vida, ama com todas as forças, pelo menos em determinados momentos; e estaria matando também o filho. Estaria matando seu filho, seu marido e a outra criança, que ainda se forma dentro dela. Como poderia qualquer um deles, se recuperar de algo assim? Nada do que possa fazer como mãe e esposa viva, nenhum lapso, nenhum acesso de raiva ou depressão encontraria um paralelo. Seria, pura e simplesmente, mau. Abriria um buraco na atmosfera, através do qual tudo aquilo que criou – dias pacatos, janelas iluminadas, a mesa posta para o jantar – seria sugado”.

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

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