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Crítica: Assassin’s Creed (2016)

Assassin’s Creed, adaptação do jogo eletrônico lançado pela Ubisoft em 2007, sofre do mesmo mal de seu protagonista, vivido por Michael Fassbender; assim como ele, o filme parece perdido entre dois mundos, sem a mínima ideia de seus objetivos, mudando de direção sem explicações, muitas vezes se tornando incoerente. Escrito a seis mão, geralmente um mal sinal, o longa se inicia em 1492, durante a Inquisição Espanhola, quando descobrimos que Aguilar (Fassbender) se junta a uma sociedade secreta chamada os Assassinos que combate os Templários. Nos dias atuais, Callum Lynch, descendente do espanhol (também Fassbender), é preso e explorado por uma empresa que pretende utilizar suas memórias para descobrir o paradeiro da Maçã do Éden, artefato que contém o código genético do livre arbítrio, e com ele acabar com a violência humana. A partir de então, a trama se divide entre os esforços de Lynch em acessar as memórias de seu antepassado e as aventuras de Aguilar no século XV.

Uma falha óbvia dessa abordagem, é que o longa parece não perceber que uma narrativa é infinitamente mais interessante do que outra. Enquanto Aguilar precisa resgatar príncipes, lutar contra exércitos e protagonizar fugas espetaculares, Lynch passa boa parte do filme em uma sala fechada, conectado a uma máquina. Dividir o tempo de exibição entre os dois personagens diminui constantemente o ritmo do filme, tornando a experiência quase insuportável. Além disso, o roteiro não consegue estabelecer qualquer lógica para as regras que regem o seu universo, sendo impossível entender claramente os conflitos seculares envolvidos, a motivação dos personagens, o funcionamento das instalações onde os personagens se encontram ou o interesse coorporativo no artefato. Recheado de diálogos expositivos e ridículos, o texto não consegue resolver nem sua parcela científica muito menos sua parte mística, tornando ainda mais estúpida a sua premissa.

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Se o roteiro é ruim, a direção de Justin Kurzel não faz muito melhor, conduzindo sem a menor habilidade a narrativa. O diretor não parece seguro de qual estratégia visual seguir, criando um filme sem padrão. Um exemplo disso é o fato de ele adotar ângulos baixos, que deveriam ressaltar a grandeza dos personagens, tanto em cenas importantes como em momentos banais, o que invalida automaticamente os esforços. Kurzel, com a ajuda do montador do longa Christopher Tellefsen, se mostra particularmente incompetente naquele que deveria ser o destaque do projeto, dirigindo as cenas de ação de modo confuso, com cortes rápidos, alternando sem muito critério entre planos fechadíssimos e abertos, substituindo em momentos chaves os atores por péssimo efeitos digitais. Aparentemente incapaz de lidar com a geografia nos momentos de perseguição, o diretor torna impossível para o espectador acompanhar e entender os movimentos dos personagens e o que ocorre na tela. Para perceber a inépcia do trabalho, é só comparar o resultado obtido em cenas muito similares (e infinitamente mais eficientes) por Paul Greengrass no filme O Ultimato Bourne.

O problema maior, no entanto, é a insistência de Kurzel em alternar os momentos de ação entre as narrativas de Aguilar e Lynch. Assim, uma interessante perseguição em plena Madrid de 1492 é substituída por uma enfadonha “mímica” do personagem conectado a uma máquina. Essas alternâncias destroem a energia das cenas, diminuindo consideravelmente a imersão. A abordagem do diretor é tão inadequada, que nem mesmo o funcionamento da máquina, que é parte central da trama fica claro. Assim, se parece óbvio que as imagens sobrepostas do passado são um recurso visual para o espectador, em muitos momentos, ela parece mesmo produzir uma projeção astral do que o personagem vê.

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Em um projeto tão desinteressante, Fassbender ainda consegue dar um pouco (não muito) de dignidade ao seu personagem, mesmo que o roteiro o obrigue a agir sempre de modo inconstante e mesmo absurdo, como na constrangedora cena em que canta alto para demonstrar o enlouquecimento causado pela experiência na máquina. Por outro lado, Marion Cortillard parece nem tentar estabelecer alguma relação de empatia por sua péssima personagem, atuando, ao contrário, com uma preguiça que não combina com uma atriz de seu talento. Aliás, o projeto parece empenhado em desperdiçar bons atores, trazendo Charlotte Rampling em uma participação mínima e embaraçosa, o sempre competente Brendan Gleeson em uma ponta que poderia ser feita por um figurante e Jeremy Irons no piloto automático como uma figura sombria de autoridade que ele já consegue fazer dormindo.

Completado por uma fotografia óbvia e ineficiente, que tenta contrapor o sépia e empoeirado das externas (principalmente na Espanha do século XV) com o branco das instalações, por péssimo efeitos especiais, que chegam a incluir um chroma key tão óbvio e desnecessário que se torna risível, por figurinos pouco inspirados e uma trilha sonora nada sutil, Assassin’s Creed chega ao cúmulo quando se leva mais a sério. Oferecendo discussões tolas sobre liberdade de escolha e controle social, o longa não parece perceber a infantilidade de seus argumentos, o que é espantoso. Suas conclusões em alguns momentos beiram o revoltante, como quando é sugerido que a violência seja hereditária (a eugenia manda um abraço). Esses absurdos só não se tornam maiores, pois é impossível levar a sério um filme tão mal escrito. Aliás, o roteiro oferece tantos furos, que a única forma interessante de acompanhar o longa seria procurá-los e somar pontos quando os encontrassem. Sabe? Como um jogo?

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