Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

A CENA FINAL DE O CAVALEIRO DAS TREVAS PASSAVA UMA IDEIA CLARA do que deveríamos esperar da última parte da bat-trilogia de Christopher Nolan: depois de assumir a culpa pelos crimes de Harvey Dent para não destruir sua imagem de “esperança de Gotham City”, Batman seria caçado como um criminoso. A primeira surpresa de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, portanto, é que a trama se passa oito anos depois de O Cavaleiro das Trevas e essa perseguição ao Homem-Morcego já é parte do passado. Passou-se muito tempo desde que Batman sumiu do mapa. Bruce Wayne se tornou um barbudo recluso que não dá as caras nem quando a festa é em sua casa, e Gotham City está aparentemente livre da corja de malucos e corruptos que sempre a assombrou. A impressão que se tem em muitos momentos de Ressurge é de estar assistindo a um “Elseworlds”, uma história que acontece em um universo alternativo e que por isso se vê livre para reimaginar a mitologia do Batman da forma que julga mais eficaz. Ao mesmo tempo, talvez seja o filme de Nolan que bebe mais diretamente dos quadrinhos. Para quem cresceu lendo as revistas do Batman, várias influências saltam à mente.

The Dark Knight Returns, por exemplo. No Brasil, a icônica HQ de Frank Miller foi batizada de Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas guarda pouca semelhança com o filme homônimo de 2008. Já em Ressurge, a imagem de um Batman retornando da aposentadoria e inspirando uma nova geração remete muito aos quadrinhos de Miller. O Bruce Wayne deste filme ainda não é velho a ponto de andar de ônibus de graça, mas sua agilidade física é a de um senhor de idade. Christian Bale compõe um Wayne alquebrado, derrotado, decepcionado – é um herói que não tem nada de super, e provavelmente a melhor interpretação de Bale na trilogia.

A presença de Bane como o principal vilão do filme lembra outra saga dos quadrinhos, A Queda do Morcego. Nada do gorilão estúpido de Batman & Robin: o Bane de Tom Hardy pode ser forte pra burro, mas não lhe falta massa encefálica. A aparência se distancia um pouco das HQs – sai a máscara de luta livre, entra uma boqueira hannibalesca que parece ter dentes -, mas o espírito do personagem, e até alguns detalhes de sua origem, permanecem bem fiéis. Enquanto o Coringa de Heath Ledger era uma força do caos, “um cachorro correndo atrás de carros, que não saberia o que fazer se chegasse lá”, Bane tem planos detalhados, motivações concretas e não é capanga de ninguém. Muito pelo contrário, aliás: mobilizar as massas é sua especialidade. Com o rosto quase todo coberto pela máscara, Hardy precisa atuar com o que pode: os olhos, o corpo e principalmente a voz, que soa como a de um homem mais velho, sarcástico e autoconfiante.

A segunda “vilã” – aqui o termo precisa de aspas – é Selina Kyle, vulgo Mulher-Gato, vivida por Anne Hathaway. Com 29 anos e cara de menininha, Hathaway não é uma femme fatale como Michelle Pfeiffer, mas sabe usar isso a favor da personagem: nos momentos em que se finge de santinha para conseguir o que quer, você não duvida um segundo da índole da moça. A concepção da personagem vai em uma direção bem diferente da Mulher-Gato de Pfeiffer, que ronronava e virava leite como quem toma pinga, a começar pelo codinome “Mulher-Gato”, que não se ouve aqui. Não vou entrar na discussão de quem fez melhor, porque isso vai muito do gosto pessoal e, bem, é irrelevante: o importante é que, assim como Pfeiffer se encaixava perfeitamente no mundo gótico e fantasioso de Tim Burton, a srta. Kyle de Hathaway é totalmente coerente com o universo de Nolan.

Dois vilões “especialmente convidados” voltam para breves aparições: Ra’s al Ghul (Liam Neeson), cuja Liga das Sombras – responsável pelo treinamento de Bruce Wayne em Batman Begins – desempenha um papel importante em Ressurge, e o dr. Jonathan Crane, o Espantalho (Cillian Murphy), mais imponente aqui do que no início de O Cavaleiro das Trevas. O único antagonista de toda a trilogia que não chega sequer a ser mencionado é o Coringa, decisão que, segundo Nolan, foi tomada em respeito a Heath Ledger. Ele considerou inapropriado ter que “explicar uma tragédia da vida real” para justificar a ausência do vilão na trama.

Também retornam três atores veteranos e fundamentais para a trilogia: Michael Caine, que tem grandes momentos dramáticos na difícil relação entre Alfred e Bruce Wayne; Morgan Freeman, que tem seu Lucius Fox saindo dos bastidores e praticamente indo para a frente de batalha; e Gary Oldman, um Comissário Gordon que, mesmo com seus altos e baixos (e há horas em que Gordon está literalmente na lama), consegue liderar com competência a polícia de Gotham e servir como suporte essencial para o Batman. Dos personagens de Marion Cotillard (a empresária Miranda Tate) e Joseph Gordon-Levitt (o policial John Blake), melhor falar pouco. Se você acompanhou a boataria em torno do filme, já sabe demais e não ficará tão surpreso quando suas funções em Ressurge forem revelados. Basta dizer que não são personagens “avulsos” e que, novamente, a influência dos quadrinhos é forte.

Ressurge é um filme de super-herói tão atípico – mais do que Begins e Cavaleiro das Trevas – que nem dá pra inclui-lo nesse, digamos, subgênero. O próprio Batman faz poucas aparições antes do final épico. A paleta de cores segue o clima soturno: é tudo preto, cinza, pardo, sem deixar espaço para cores mais vivas como o verde do cabelo do Coringa. A trilha de Hans Zimmer retoma as composições escritas para os dois primeiros e introduz um novo tema, cantado em coro por inúmeras vozes e presente em todo o filme. Dá pra contar nos dedos os momentos de humor – uma piadinha de Lucius Fox aqui, outra do Batman com a Mulher-Gato (chupada de outra HQ, O Reino do Amanhã) acolá. Definitivamente não é um filme que você vai pra se divertir, mergulhar num mundo de fantasia e esquecer da vida por algumas horas. É pesado, sombrio, pra baixo, que vai deixar poucas crianças com vontade de ser o Batman.

Isso está longe de ser um problema: é só uma característica. O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem sim a sua parcela de falhas, como o excesso de exposição (os vilões explicam seus planos antes da hora, como se estivessem na série do Batman dos anos 60) e a facilidade com que alguns personagens descobrem a identidade do Homem-Morcego. Mas continua sendo um filme muito bom e consistente e um final extremamente digno para a trilogia. O desfecho, corajoso e emocionante, é o primeiro em um filme do Batman que encerra um ciclo e passa a sensação de ser uma obra fechada. É difícil prever como a Warner vai prosseguir com a franquia daqui pra frente: Ressurge deixa o caminho livre para derivados, mas é improvável ver um Batman tão humano inserido no universo de semideuses da Liga da Justiça, por exemplo. Complicado mesmo vai ser não deixar a peteca cair e fazer novos bat-filmes tão competentes, inteligentes e impactantes quanto a trilogia de Christopher Nolan.

Título original: The Dark Knight Rises
Direção: Christopher Nolan
Produção: Christopher Nolan, Charles Roven & Emma Thomas
Roteiro: Jonathan Nolan & Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Michael Cain, Gary Oldman, Anne Hathaway, Tom Hardy, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Morgan Freeman
Lançamento: 2012
Nota:
 

Lucas Paio

Lucas Paio é mineiro de Belo Horizonte, passou quatro anos na China e desde 2013 vive em Berlim, onde passa o tempo livre no cinema (os poucos que exibem filmes sem dublagem em alemão) e conhecendo a cerveja, digo, a cultura local.