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Batman

Depois que Christopher Nolan botou a mão na saga do homem morcego nos cinemas, fica até injusto relembrar o passado e comparar o filmes originais. Claro que não estou dizendo que Nolan é melhor diretor que o Tim Burton (mil vezes melhor que o Joel Schumacher ele é), mas é um diretor diferente e que se encaixou perfeitamente no universo do morcegão. Quando Tim Burton resolveu dirigir Batman em 1989, a principal intenção era criar um produto rentável e que bebesse muito nas hq`s daquela época e no seriado clássico dos anos 60. E tudo isso sem ser violento para não perder o público infantil, que até então era o target principal de filmes de heróis. Tudo isso vai no caminho contrário do que Nolan desenvolveu em Batman Begins. Ao contrário da Gotham City de Tim Burton, na nova versão a preocupação principal é em tornar Batman um personagem que poderia ser real. Uma completa repaginada no universo mágico e fantasioso de Burton. Pessoalmente, prefiro a versão de Nolan e tinha até certo preconceito com os dois primeiros filmes (dizer que tenho preconceito com os outros dois seria eufemismo. De-tes-to o Joel Schumacher), mas depois de assistir novamente com mais atenção mudei de ideia. Se não chega a ser melhor que Batman Begins ou O Cavaleiro das Trevas, certamente que o filme de 1989 não faz feio. Tudo por conta da parceria de Tim Burton e sua mão mágica; Danny Elfman e sua trilha sonora perfeita; e claro, Jack Nicholson.

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Muito se falou sobre quem seria um melhor Coringa. Heath Ledger se deu por completo no papel de sua carreira e venceu, merecidamente, o Oscar. Porém existe uma grande diferença entre o posicionamento dos Coringas. Se Ledger ofereceu uma atuação visceral, perturbadora e verdadeiramente insana, o ator Jack Nicholson mergulhou nas fitas da série clássica e revisitou o seu melhor papel no cinema (O Iluminado) para ter mais uma atuação marcante no cinema. Duas abordagens completamente diferentes e que acabam sendo impossíveis de serem comparadas. Mas é inegável o impacto que Jack Nicholson e o seu Coringa tiveram no roteiro do Cavaleiro das Trevas. Muitos detalhes foram reaproveitados com poucos upgrades. Chega quase a ser arrepiante reparar nas semelhanças entre os dois Coringas. A única cagada que impediu Batman de ser um filme quatro caipirinhas foi o fato de, além de criarem uma identidade verdadeira para o Coringa, resolveram transformar-lo no assassino dos pais de Bruce Wayne. Excelente conclusão do roteiro para deixar a história bem amarradinha? Ou apenas uma menção ao Império Contra-ataca? Acaba não importante, pois no fim do filme temos a certeza de que assim como aconteceu em Cavaleiro das Trevas, o primeiro Batman deveria ter se chamado Coringa… Pessoalmente, prefiro a atuação de Heath Ledger. Mesmo sabendo que dentre as referências do ator estava, obviamente, a atuação de Jack Nicholson (o que pode ser percebido em diversas passagens de O Cavaleiro das Trevas), tenho muito mais atração pela violência escandalosa e caótica de Ledger. Independente das consequências que acabaram resultando em sua morte (o que acabou elevando a nivel de gênio a sua atuação), ainda assim votaria nele. Mas isso sou eu.
Mas nem só de Jack Nicholson vive Batman. Apesar de atuações mediocres de Kim Basinger (só compensa pela beleza) e de um Harvey Dent negão (um claro exemplo de que Tim Burton quis destacar APENAS o embate entre Coringa e Batman, e se sobrasse tempo usar algum personagem clássico só para homenagear), acabamos surpreendidos com uma exibição de um quase talento no ator Michael Keaton, que provavelmente ainda estava inspirado depois de trabalhar com Burton no super divertido Beetlejuice. Muitos criticaram a atuação de Keaton nos filmes da série e o acusaram de transformar Bruce Wayne em um pateta rico e quase careca. O problema é que o próprio roteiro de Batman faz com que a identidade secreta do personagem seja meio pateta. Nada que tem a mão de Burton foge de certas fórmulas e uma dela é o uso constante de humor. Seja ele negro ou não. E pensando dessa forma, Michael Keaton se superou e mostrou ser um melhor Bruce Wayne que Val Kilmer (loiro) e George Clooney em Batman Eternamente e Batman e Robin, respectivamente. Keaton conseguiu assimilar bem a proposta e ao contrário de seus sucessores, conseguiu dar o tom de humor sem cair no ridiculo e na vergonha alheia, coisa que George Clooney deve se lembrar até hoje. Ou você já se esqueceu do infame “bat-cartão de crédito” e das milhares de piadinhas no filme carnavalesco de 1997?
Por este filme e apenas esse, Tim Burton me ganhou como um de seus milhares de admiradores. Na primeira vez que vi (isso há quase vinte anos) Batman, não tinha ideia de quem era o diretor e muito menos entendia todo o trabalho feito na concepção da Gotham City e seus prédios dignos de livros de Edgar Allan Poe. E isso que é um dos grandes baratos de ver filmes e acompanhar a carreira de certos diretores. Quando nos permitimos relembrar nossa época de criança e nossos sonhos. Batman é um bom retrato daquela época e um filme para se ter em casa e assistir sempre que o homem morcego estiver em evidência nos cinemas. O legado de Tim Burton ainda tem muito a oferecer para Christopher Nolan e sua visão mais crua e violenta do universo de um dos melhores personagens das revistas em quadrinhos.
São três caipirinhas e meia.
ps: post dedicado para a minha avó, que foi a responsável pela minha paixão pelo cinema e que, curiosamente, me levou para ver Batman – O Retorno nas telonas do BH Shopping em 1992. Aquela foi a minha primeira (e como eles dizem, foi inesquecível) visita a um cinema. Obrigado por tudo.

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