Crítica: Blade Runner: O Caçador de Andróides, de Ridley Scott
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Filme: Blade Runner: O Caçador de Andróides

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SEMPRE QUE SE COMEÇA UMA DISCUSSÃO SOBRE LISTAS DE MELHORES SCI-FI DE TODOS OS TEMPOS, Blade Runner: O Caçador de Andróides, de Ridley Scott, acaba sendo mencionado como um dos principais exemplares do gênero. Longe de ser uma mentira ou injustiça, afinal de contas é realmente uma obra genial, baseada em um livro do incrível Philip K. Dick (Minority Report e Agentes do Destino). No entanto, mesmo depois de assistir pela segunda vez, ainda não consegui enxergar o que faz Blade Runner ser tão especial para tantas pessoas. Talvez seja a miopia voltando ou os efeitos do bar na noite passada, mas simplesmente não sinto a menor empolgação com a obra. Me processe.

A trama se passa em uma Los Angeles futurista, com uma direção de arte impecável e que merecidamente recebeu uma indicação ao prêmio da Academia. Deckard (Harrison Ford) é um detetive responsável por encontrar (e eliminar) quatro replicantes (espécies de clones humanos que se rebelaram e acabaram banidos do planeta) sobreviventes. Durante sua missão, ele acaba conhecendo Rachael, uma outra replicante, e se apaixona por ela.

Além da qualidade técnica inquestionável, um ponto forte da obra é a construção de seus personagens coadjuvantes. A maioria ofusca Deckard, que mesmo na pele de Harrison Ford não consegue superar a eficiência da interpretação de Hutger Hauer. O ator fetiche dos primeiros anos de trabalho do cineasta holandês Paul Verhoeven interpreta um vilão humano e capaz de fazer o espectador questionar se ele realmente é o grande inimigo ou apenas uma vítima das circunstâncias. Tentarei fugir do senso comum de indicar a sequência final como o seu grande momento em Blade Runner. Existe um momento em que, numa certa referência ao clássico Frankenstein, a criatura (Hauer) se encontra com seu criador. Eles conversam demonstrando admiração um pelo outro, mas ao mesmo tempo cada um deles sente medo (criador) e ódio (criatura). O desfecho do encontro não poderia ser mais óbvio, mas tudo é orquestrado brilhantemente pelo olhar atento de Scott.

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A atuação de Sean Young pode ser considerada o elo mais fraco de Blade Runner. A replicante Rachael oferece muitos detalhes sutis para serem devorados pelo espectador, mas a atriz escolhida consegue realizar sua tarefa com o mesmo nível de excelência que Sophia Coppola morre em O Poderoso Chefão 3. O roteiro tenta humanizar os replicantes em diversos momentos, principalmente ao criar o conflito do drama da personagem ao ter que lidar com o fato de que ela não é humana, apesar de todas as recordações e memórias criadas. Ouso dizer que uma atriz melhor pudesse ter me convencido a acreditar nesse drama sem achar tudo superficial demais. Quem sabe?

Um dos problemas, ou qualidades?, de Blade Runner são as várias versões diferentes do longa-metragem que estão disponíveis no mercado. Além da versão de cinema, os fãs se dividem entre outras seis versões. Cada uma com um detalhe diferente. Para o espectador comum é um saco tentar discutir sobre o longa-metragem, pois nunca se sabe qual foi a versão que as pessoas ao redor assistiram. Aliás, escrevi o texto após assistir a versão “Final Cut”, de 1997. Provavelmente uma escolha ruim, mas é a vida.

Antes de assumir a direção de Blade Runner, o diretor Ridley Scott levou para as telas de cinema o genial Alien, O Oitavo Passageiro. Com dois dos maiores sucessos de público e crítica do gênero, Scott poderia ter se tornado um dos grandes mestres do sci-fi, mas optou por mudanças de ares e só voltou a trabalhar com ficção científica em Prometheus, de 2012. Muito curioso observar que tanto Alien quanto Blade Runner costumam ser as obras mais lembradas (e adoradas) do gênero, e são todas fruto do trabalho do mesmo homem. Pessoalmente, não tenho a menor sombra de dúvidas que Alien é definitivamente superior a qualquer outro produto criado por Scott.

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Com todos os pontos citados acima, e tantos outros que fui incapaz de conseguir transferir para o computador, fica até uma certa dúvida para entender o motivo que não me faz gostar tanto de Blade Runner. Possivelmente pode se tratar da mesma briga boba entre Star Wars e Star Trek, e acabei entrando de unhas e dentes na turma que defende Alien, O Oitavo Passageiro como melhor obra do currículo de Ridley Scott. Fora a Sean Young, não existem defeitos em Blade Runner. É uma bela história muito bem trabalhada e com os elementos sci-fi sendo utilizados com sabedoria, apenas como um mero detalhe, ao invés de fazer a premissa inteira girar ao seu redor. E mesmo assim, permaneço indiferente. Quem sabe depois de rever pela quarta, quinta ou sétima vez as coisas mudem?

Verdade seja dita é que Blade Runner marcou a história do cinema. Independente de opiniões pessoais, se trata de uma daquelas obras indispensáveis para os amantes da sétima arte, especialmente os admiradores do universo sci-fi. Ao lado de 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick; O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven; A Mosca, de David Cronenberg; e do próprio Alien, O Oitavo Passageiro, a obra de Ridley Scott merece uma atenção especial. Até de quem nunca se impressionou muito com a premissa ou gênero.

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ps: Dedico o texto para todas as pessoas que tentam me convencer sempre que Blade Runner é melhor que Alien. Vocês fracassaram.
ps2: Dedico também para o Otavio Oliveira, com quem tive uma breve conversa sobre o trabalho de Ridley Scott e Blade Runner.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.