Caçadores de Obras-Primas

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OS NORTE-AMERICANOS , seja através da Arte ou não, adoram apontar o dedo para os outros, ignorando seus próprios erros. Por este motivo, podemos ver uma infinidade de produções oriundas do país propostas a retratar, especialmente, a Segunda Guerra Mundial, todas as atrocidades cometidas pelos nazistas e, especialmente, seu exército terminando com esta crueldade e sagrando-se vencedor, contrapondo-se a uma quantidade tão pequena de projetos propostos a retratar, por exemplo, a invasão militar norte-americana à países do Oriente Médio com objetivos exploratórios, nos últimos anos, e tamanhas crueldades cometidas por eles. Neste sentido, Caçadores de Obras-Primas não chega para mudar absolutamente nada.

Destoando do habitual da carreira de George Clooney (Tudo Pelo Poder) como diretor, o longa segue a cartilha e não propõe-se a realizar grandes questionamentos ou inserir traços de ousadia em sua trajetória; o drama de guerra em suas personagens está lá, a exaltação ao exército norte-americano também. Não que isto impeça o projeto de ser interessante, nem mesmo de ser competente, é apenas frustrante observar a carreira tão excepcional de um cineasta caindo no habitual, passando a chover no molhado.

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O período retratado é a reta final da Segunda Guerra Mundial, quando uma operação foi organizada pelo exército dos Estados Unidos para recuperar obras-primas da Arte com importância histórica e que haviam sido raptadas pelo comando nazista em pretensões de dar fim a estas obras. O grande questionamento que surge é se vale a pena arriscar a vida de tantos militares apenas para recuperar peças artísticas, e por isto, poucos homens são autorizados a realizarem a missão, tornando-a ainda mais difícil e arriscada. Sob o comando de Frank Stokes (Clooney), estão apenas seis especialistas em Arte, sem grande experiência militar, enviados para infiltrar-se em territórios nazistas correndo real risco de morte, procurar e recuperar as tais obras. Cada possível perda ganha maior importância.

Nestas perdas e na reflexão sobre a Arte valer ou não uma vida humana, Caçadores de Obras-Primas constrói seus dramas. E nestes dramas – no caso, aquele que retrata as perdas de personagens, uma vez que as reflexões sobre os valores da Arte são moderadamente eficientes -, reside provavelmente seu ponto mais fraco. Deixando a frieza habitual, eficientemente empregada na construção dramática em seus outros projetos, de lado, aqui George Clooney emprega um maniqueísmo exagerado para realizá-lo, desde a trilha sonora – Alexandre Desplat em seu segundo trabalho abaixo da média, seguido de Philomena -, até os previsíveis discursos. Na maior parte das vezes, o drama soa muito piegas. Um dos primeiros discursos, de Frank Stokes a respeito da importância do que aquele grupo está realizando ali, por exemplo, é uma reflexão importante, porém executada de forma piegas.

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Por sorte, quando o drama militar fica em segundo plano, com o foco central voltando-se para uma aventura clássica e cômica, a produção diferencia-se um pouco do habitual, elevando sua qualidade. Contando com o entrosamento de seu excepcional elenco – destaques, especialmente, para a dupla formada por Bill Murray (Um Final de Semana em Hyde Park) e Bob Balaban (Moonrise Kingdom), protagonistas da cena mais engraçada da projeção, aquela envolvendo cigarros e um soldado nazista – para realizar algumas trocas do diálogos ágeis e divertidas, o longa estabelece-se com eficiência aventurando-se neste gênero, raramente ocupado por produções dedicadas a retratar contextos de guerra. E esta raridade é justificada por muitos enxergarem como uma problemática a ideia de retratar situações trágicas de forma cômica, mas na proposta realizada por esta obra, funciona.

Complementando as afirmações realizadas acima, é interessante notar como o diretor opta por ligar a forma ao conteúdo, uma vez que, na proposta de refletir sobre a importância de preservarmos nosso passado, retratado em obras de Arte, Caçadores de Obras-Primas não apenas propõe a reflexão através de seus diálogos, mas especialmente em sua própria execução, ao realizar um resgate ao passado, adotando uma estrutura e atmosfera do Cinema de aventura clássico, como na Era de Ouro de Hollywood, ou seja, para destacar a importância do passado da Arte, a produção comandada por George Clooney viaja até o passado, de sua própria Arte.

Obs.: Aos que possam interessar-se em outro filme dirigido por Clooney, o ótimo e subestimado O Amor Não Tem Regras, o diretor também propõe-se a realizar uma narrativa de estilo clássico, voltando ao passado. Vale a conferida.

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Título original: The Monuments Men
Direção: George Clooney
Gênero: Comédia, aventura, guerra
Roteiro: George Clooney e Grant Heslov, com base no livro de Bret Witter e Robert M.Edsel
Elenco: George Clooney, Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Jean Dujardin, Bob Balaban, Cate Blanchett, Dimitri Leonidas, Hugh Bonneville
Lançamento: 14 de Fevereiro de 2014, nos cinemas

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.