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Filme: Cidadão Kane

NÃO É DIFÍCIL COMPREENDER O PORQUÊ de Cidadão Kane ser considerado o melhor filme de todos os tempos. Em 1941, Orson Welles, um jovem diretor de teatro, se aventurou pelo mundo do cinema, produzindo uma das obras mais controversas de sua geração. Avaliado como brilhante quase que por unanimidade, a controvérsia ficou por conta de especulações de que a inspiração para o roteiro teria vindo do grande empresário da mídia, William Randolph Hearst. Poderoso, Hearst tentou impedir o lançamento do filme, sem sucesso.

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Quando estreou, o New York Times afirmou: seria um crime se esse filme fosse suprimido. O que pode parecer exagerado hoje, na era do 3D, não era à época. Não só se tratava de um roteiro excelente, com ótimos diálogos e que – vejam só – começava do fim (!), Cidadão Kane trouxe toda uma gama de inovações visuais que fizeram deste um filme pouco ou nada ortodoxo – e é aí que jaz a sua beleza.

Muito se diz da direção de Welles, que de fato foi excelente. Sua atuação como o jovem magnata das notícias, bem como a condução de todo o elenco, idem. No entanto, é impossível falar de todas as qualidades do longa sem citar a brilhante fotografia de Gregg Toland. Ele desenvolveu uma técnica de profundidade de campo que colocava toda a imagem em foco, considerada inusitada para a época. Outras técnicas, como a perspectiva, sombras e tomadas mais longas que o costume deram o tom para um filme visualmente impecável.
A trama, de fato, começa pelo fim, com o falecimento do personagem principal. Em seu leito de morte, o protagonista sussurra sua última palavra: rosebud. Toda a história se desenrola através de entrevistas feitas por um repórter que quer descobrir o significado daquela enigmática declaração final de um dos homens mais importantes da época.

O espectador conhece Charles Foster Kane através dos relatos de pessoas que conviveram com o misterioso magnata. Pouco se sabe daquele que se dedicava a saber tanto da vida dos outros – com um estilo jornalístico que, muitas das vezes, era condenável. Esses relatos ajudam a compor o quebra-cabeças que era Kane, uma personalidade polêmica para aqueles tempos.
Aos poucos, a figura enérgica de Kane ganha contornos cada vez menos elogiáveis, com o poder lhe subindo à cabeça e a sucumbência frente às crises e problemas. O comportamento juvenil e alegre é substituído pela amargura, e, posteriormente, pelo isolamento em sua casa inacabada, carinhosamente chamada de Xanadu.

Exposto de forma cínica e satírica, é impossível não fazer um paralelo entre Kane e outros detentores do mesmo poder que Charles tinha: o de informar. É aí que o filme se mostra extremamente atual, ligando os Kanes, Hearsts, Marinhos e Murdochs do mundo, levantando, inclusive, o debate sobre o papel do jornalismo.
Ao final, o significado do mistério é revelado, mostrando também um lado que sequer sabemos e simplesmente esquecemos que Kane poderia ter. E, quando se percebe que todo aquele império se resume a um castelo inacabado e estátuas e pinturas e memorabílias, Cidadão Kane deixa o questionamento: dinheiro, fama e poder significam felicidade? Não no caso do solitário Kane.

Citizen Kane, 1941
Direção: Orson Welles
Roteiro: Herman J. Mankiewicz, Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead

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