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PODE SER CLICHÊ E REPETIÇÃO DE UMA MESMA PIADA, mas afirmar que o filme faz jus ao título não é brincadeira. Muito menos chega a ser uma piada engraçada. Aliás, até mesmo a música homônima do grupo de pagode Molejo, é mais divertida (e renderia um roteiro mais interessante) que a versão cinematográfica da série de Bruno Mazzeo

Cilada.com funciona com a parcela do público que está em busca de diversão passageira e que depois de serem globalmente lobotomizados, acabaram perdendo o bom senso (se é que um dia esse público adepto ao funk e tão agarrado em convenções sociais, teve algum mínimo de bom senso – ou sequer sabem o significado do termo) e achando graça de piadas fracas e forçadas. Que Mazzeo é um dos grandes nomes do humor brasileiro, não há dúvidas, mas como é que ele poderia buscar alternativas de fugir do padrão de qualidade necessário para agradar (e ser financiado) sem correr riscos? Difícil missão. Diria que é a verdadeira cilada do título. 

A premissa poderia render um episódio engraçado de alguma série: a mulher traída publica na Internet uma sex-tape do casal, onde o maridão goza antes de terminar a frase: “Vou exterminar você”. O vídeo surge no Youtube e logo todos os amigos do “ligeirinho” ficam sabendo da “façanha”. Também existem outros momentos divertidos ao longo da projeção (os depoimentos das ex-namoradas, por exemplo) e acabam salvando o filme de um naufrágio completo.

Mas o problema da produção é a insistência em fugir do humor escrachado e investir no lado sentimental. Uma porta é mais profunda que os personagens, cujos perfis são estereotipados e sem a menor graça. O personagem sofre por sua incapacidade de revelar o que realmente sente para a sua namorada, que esperançosa, enche os olhos de lágrimas em cada oportunidade de ouvir o sujeito pronunciar “eu te amo”. Claro que ela é frustrada na maioria das chances e não se entende se isso deveria ser engraçado ou triste. 

Os personagens secundários são apresentados com a intenção de fazer o público rir. E parece que essa é a principal função deles, já que acabam sendo mero detalhe no desenvolvimento da trama. Marconha (Serjão Loroza) tenta ser engraçado, mas as piadas com o nome (e a droga) não funcionam. O problema de bafo da personagem de Carol Castro chega a divertir por introduzir algo inusitado, mas é mal aproveitado. E existem vários outros probleminhas na trama, que poderia ser confundida como um especial para televisão, já que o único diferencial é a utilização de um ou outro palavrão. 

Além de contar com essa aparente falta de graça de alguns personagens e situações, o filme de José Alvarenga Jr. ainda peca por usar uma ou outra cena que poderia facilmente ser descartada na edição final. Como exemplo, existe uma cena completamente desnecessária, onde o vídeo viral de Bruno vira motivo de piadas para um comediante durante a sua apresentação. A cena parece ser jogada apenas como forma de promover o humorista em questão, que apesar de não fazer nenhum comentário relevante ou de fato engraçado, parece merecer o destaque e atenção do diretor. Nada contra promover outros artistas, mas ficou gratuito demais e forçado. 

Cilada.com cumpre o objetivo de uma comédia e faz o espectador rir, mas infelizmente, as risadas não garantem a qualidade do produto final. Um filme não deve se basear apenas em uma ou outra boa piada, ainda mais quando as melhores são entregues de bandeja no trailer (mesmo que já havia acontecido em Muita Calma Nessa Hora). Enquanto o humor brasileiro focar apenas no público acomodado com as tradicionais “normas” televisivas, artistas como Mazzeo ficarão presos em histórias limitadas e que apenas flertam com o politicamente incorreto. 

Que os bons ventos afastem a comédia nacional do chato e entediante estilo novelístico, que funciona apenas na telinha, e deem chance para piadas inteligentes e que não tratem todo o público como parte da maioria burra e que prefere se deliciar com os efeitos especiais reciclados de Michael Bay em Transformers: O Lado Oculto da Lua aos encantos parisienses de Woody Allen em Meia Noite em Paris. Existe vida inteligente habitando os cinemas, e ainda que sejam minoria, as comédias nacionais seriam extremamente bem vindas. 

1 caipirinha. 

Cilada.com, 2011
Direção: José Alvarenga Jr.
Roteiro: Bruno Mazzeo
Elenco: Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme

  • Roberto

    A Globo Filmes mais uma vez rebaixando o cinema nacional a "novelões para a grande tela". E o cinema nacional, por sua vez, perecendo ante a imbecilidade "global". Só nos resta chorar!

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.