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Confiar



A INOCÊNCIA É UMA BELA QUALIDADE TÃO RARA DE ENCONTRAR, mas e quando esse ponto positivo se transforma em algo negativo e até mesmo perigoso? Certas pessoas crescem acreditando que existe apenas o bem no mundo, que podem abrir o coração para qualquer tipo de pessoa que demonstre o mínimo interesse. A Internet facilita esses contatos, que mesmo distantes, podem nos iludir e fazer acreditar que a pessoa que nos ouve é nossa alma-gêmea. Da mesma forma que uma inocente jovem numa boate pode acreditar que a aproximação de um jovem adolescente foi apenas com a intenção de conversar, nós podemos nos sujeitar a confiar demais em uma pessoa que sequer existe. 


O que basta para uma pessoa se tornar indispensável, confidente e parceiro? Como foi que deixamos as palavras escritas sobressaírem aos toques, aos olhares? A ingenuidade da menina da boate em acreditar que não é desejada por outro que não o seu namorado, a insegurança da menina romântica que mantém um namoro virtual de meses apenas para não correr o risco de ser rejeitada. Tudo isso se baseia na comunicação entre dois lados e se de um lado existe a indefesa jovem, do outro existe um homem/garoto que pode muito bem se aproveitar da situação para convencer a pessoa a fazer exatamente o que ele quer. 

É um mundo perigoso esse que vivemos. Ainda mais quando meras conversas virtuais se tornam como principal forma de se apaixonar. Confiar é preciso, mas até que ponto? Ainda mais quando se trata de alguém que mal conhecemos. Infelizmente uma conversa virtual nunca será capaz de oferecer toda a segurança de um encontro ao vivo, onde as mentiras revelam ter pernas curtas e o perigo de estar diante um maníaco é bem menor.

O texto a seguir contém informações sobre os acontecimentos do filme.

Estrelado por Clive Owen e Catherine Keener, o thriller Confiar narra o estupro de uma adolescente de 14 anos de idade, que à princípio enxergava tudo com naturalidade, pois vivia a ilusão de um relacionamento com o agressor, um homem com mais de 35 anos de idade e que durante dois meses manteve conversas diárias com a garota. Após descobrir que outras garotas também foram estupradas pelo maníaco, ela cai na real e mergulha numa profunda depressão, enquanto o pai lentamente vai perdendo o controle da situação.

Com um tema tão forte, fica difícil acreditar que o diretor ficou famoso por interpretar Ross Geller no seriado Friends. David Schwimmer mostra que possui talento para comandar um elenco forte em uma trama pesada. Embora deixe o filme parecer arrastado, o diretor conta com o carisma e eficiência de Owen, que consegue ir de um extremo ao outro de forma brilhante. Se no começo do filme ele é um pai alegre e confiante, após a filha ser estuprada, ele se torna uma pessoa obsessiva e insensível. Seu único objetivo é encontrar o agressor e acabar com sua vida. O ator praticamente leva o filme nas costas. 

Liana Liberato interpreta a jovem Annie, que conhece Charlie pela Internet e passa a manter um relacionamento normal com o “rapaz”. Por normal entenda que os dois estão apaixonados e acabam trocando aquelas mensagens picantes que todo mundo já experimentou um dia. A garota é virgem, se sente estranha no meio das outras meninas e acha que o “namorado” é a única pessoa que a entende.

A primeira decepção acontece quando Charlie revela não ter apenas 16 anos, e sim 20. O que deveria ser o suficiente para bloquear o garoto para sempre acaba sendo ignorado. E depois ele ainda confessa que mentiu novamente e que possui 25 anos. Annie continua ignorando a mentira e se concentrando “nas verdades” que conversavam e no “amor” que sentiam um pelo outro. 

Logo marcam um encontro. Annie fica chocada ao descobrir que o “jovem” Charlie possui no mínimo 35 anos de idade, mas decide dar uma chance para o sentimento e acaba parando num motel. Lá ela veste uma sensual lingerie vermelha e cede ao assédio do homem, que filma tudo com uma câmera escondida. Após a relação, Charlie desaparece e uma amiga de Annie conta tudo para a polícia, para o desespero da amiga. 

Toda essa situação dá margem para uma curiosa situação, onde Annie defendia com unhas e dentes o namorado e ainda acreditava piamente que realmente era especial e que todo o futuro que eles poderiam ter foi arruinado. Afinal de contas, será que o amor nos deixa tão cegos assim ou faz parte apenas da insegurança de uma bela adolescente, acreditar que o pior cara do universo é digno de qualquer afeto? Quando finalmente se dá conta de como foi enganada e iludidade, o mundo de Annie desaba e só o amor de sua família pode ser capaz de ajudar nesse momento. 


Schwimmer acerta ao tirar o vilão de cena e fazer de Confiar, um retrato do que é a realidade e aos riscos que estamos sujeitos. A ineficácia da polícia deixa o criminoso escapar, mas afinal… quem será o monstro capaz de enganar tantas garotas e causar tanto mal para as respectivas famílias? Sem medo, o diretor revela nos créditos finais que esse monstro está mais perto do que nós imaginamos e que ninguém merece a confiança completa de uma pessoa. O filme nos faz pensar muito num tema polêmico e doloroso.

A cena final me lembrou o seriado Dexter, um dos retratos mais interessantes sobre os monstros que vivem dentro de cada um de nós. Infelizmente algumas pessoas são desequilibradas o suficiente para deixarem seus desejos mais sombrios tomarem forma e se tornarem realidade. No mundo real, a crueldade não é perseguida por um assassino justiceiro. A crueldade descansa em paz, tomando café da manhã com a família e lendo a manchete de mais um crime bárbaro, enquanto pensa se ele não seria capaz de fazer ainda pior. E escapar. E continuar assim para sempre. 

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