Crítica: Confissões de Adolescente, de Daniel Filho e Cris D'amato
Críticas de filmes

Confissões de Adolescente

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O FORMIDÁVEL AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL, lançado nos cinemas em 2012, é baseado em um livro publicado em 1999 e conta uma história ambientada no início da década de 1990 – e mesmo que não haja grandes distâncias de tempo separando os três períodos, é admirável como o texto de Stephen Chbosky permanece pertinente para as gerações de jovens que viveram nas três épocas (e provavelmente continuará atingindo muitas das futuras), conseguindo, por exemplo, dialogar fortemente com a juventude dos tempos atuais mesmo sem recorrer às modernidades que definem as relações interpessoais de hoje (como celulares, internet e redes sociais). No extremo oposto do espectro, podemos colocar O Diário de Tati, longa nacional centrado em uma adolescente aborrecida e estereotipada que, quando filmado em 2006, já soava datado (considerando que o “humor” parecia menos sedimentado em situações do cotidiano adolescente e mais nas expressões e gírias engraçadinhas da personagem, importadas da época em que esta fazia sucesso em algum humorístico na TV) – e o embaraço se tornou ainda maior quando o filme permaneceu longos anos engavetado, transformando-se em um dos mais anacrônicos lançamentos de 2012.

Minha curiosidade ao entrar na sessão de Confissões de Adolescente dizia respeito justamente à discussão levantada no parágrafo anterior: teria o texto de Maria Mariana, originalmente lançado como peça teatral em 1992, chegado a 2014 em boa forma? Adaptado pelo jovem Matheus Souza (que, além de diretor e roteirista de Apenas o Fim e Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida e sensação cult do cinema brasileiro, já havia cuidado de uma versão teatral contemporânea da criação de Maria Mariana ao lado de Clarice Falcão) com a colaboração de Sylvio Gonçalves, o roteiro acompanha quatro irmãs que, em fases diferentes da juventude, enfrentam dilemas igualmente distintos depois que o pai, Paulo (Cassio Gabus Mendes), anuncia que a família precisará mudar de apartamento por questões financeiras. Já na faculdade e morando fora de casa, a primogênita Tina (Sophia Abrahão) está correndo atrás do primeiro emprego enquanto vê seu longínquo namoro enfrentar uma aparentemente inevitável crise; prestes a prestar vestibular, Bianca (Bella Camero) sofre com a dificuldade de escolher um curso superior que concilie a ambição do pai e suas próprias vontades, ao mesmo tempo que parece estranhamente empenhada em esconder seu misterioso namorado dos amigos e familiares; já a mente de Alice (Malu Rodrigues) está ocupada com a famigerada primeira transa, incluindo não só as expectativas e os preparativos, como também as consequências do ato; por fim, a caçula Karina (Clara Tiezzi) se vê sendo cortejada por um garoto que, em função do sucesso de Crepúsculo, passa a acreditar que garotas sentem atração por vampiros e começa a tentar se passar por um.

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Infelizmente, a harmonia entre todas as subtramas (que não se resumem às descritas acima) não é completamente eficaz: a tarefa de acompanhar a ampla galeria de personagens torna-se ligeiramente mais desafiadora em função dos flashbacks que complementam apenas uma das historinhas (confesso que só notei que essa estratégia estava sendo usada quando um raccord colocou em posição de igualdade o jovem ator Eduardo Melo e adulto Hugo Bonemer, já que para mim se tratavam de subtramas distintas) ou ainda graças a bruscas e inoportunas mudanças de tom, quando a narrativa salta de cenas engraçadinhas para outras dramaticamente carregadas sem qualquer cerimônia. Ainda nesse sentido, é perfeitamente possível compreender os propósitos cômicos pretendidos por Souza ao conceber a subtrama do rapaz que se inspira em Crepúsculo, mas a falta de vigor da direção faz com que as cenas apenas aborreçam o espectador e destoem do restante da narrativa (note como até a mãe do personagem de João Fernandes, vivida em uma pequena participação afetiva por Deborah Secco – integrante do elenco original da série de tevê -, surge como uma figura tremendamente absurda e incompatível com o universo do filme).

Além disso, Confissões de Adolescente também acaba sofrendo com problemas de ritmo, quando muitas das pendências começam a ser rapidamente resolvidas sem, contudo, constituírem um clímax propriamente dito – e, quando nos damos conta, a maior parte dos dramas já foi superado e os créditos finais já estão pipocando na tela. E embora eu me sinta compelido a elogiar a decisão da produção de respeitar a importância de nudez, sexo e palavrões em tramas como essa, não há como ignorar que pelo menos uma das cenas marcadas por este conteúdo soa um tanto artificial: a exposição a que Juliana (Olivia Torres) se submete durante uma aula de Educação Física é radicalíssima e não parece condizente com a personalidade da garota. Ainda nesse sentido, a forma como os diretores Daniel Filho e Cris D’amato evocam o misto de sensações e inseguranças durante a primeira relação sexual de Alice e Marcelo (Christian Monassa) é até bastante interessante, pelo menos na teoria; na prática, efeitos especiais mais rebuscados teriam feito com que a cena deixasse menos a desejar.

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Por outro lado, o belo e jovem elenco surge como uma agradável surpresa ao oferecer, na maior parte do tempo, desempenhos naturais e expressivos – fruto, talvez, da decisão dos realizadores de privar os atores da posse do roteiro, cujas linhas gerais dos diálogos eram fornecidas aos jovens pouco tempo antes do grito de “Ação!” em busca de uma maior espontaneidade, que é alcançada mesmo com os consideráveis índices de clichês do roteiro. Todavia, mesmo pecando ao tentar abraçar o mundo e tocar no maior número possível de questões pertinentes aos jovens das mais diversas idades, Confissões de Adolescente alcança o sucesso narrativo em diversas ocasiões: há uma inegável força, por exemplo, na forma como a crise do relacionamento de Tina e Lucas (Hugo Bonemer) é trabalhada, na tranquilidade e compreensão do personagem de Cássio Gabus Mendes ao saber de determinada problema que uma amiga de Tina estaria enfrentando (e a forma emblemática como essa reação está diretamente ligada ao fato de o dilema não estar sendo vivenciado por uma de suas filhas) ou por trás do desabafo patético de uma patricinha no terceiro ato. E, exatamente por tudo isso, fiquei particularmente espantado com a forma displicente como a questão do aborto é tratada pelo filme: embora claramente não se proponha a ir fundo na discussão, o roteiro tampouco se priva de trazer uma personagem sensata esbravejando que “Aborto é crime!”, sem considerar a ampla diversidade de variáveis que fundamentam a discussão.

Mas são os bons momentos citados anteriormente que, de certa forma, me levam a concluir que Confissões de Adolescente encontra-se em um meio termo entre os extremos citados no primeiro parágrafo: não só a base da obra de Maria Mariana parece ter resistido bem ao tempo, como também a reformulação parece ter méritos suficientes para não soar particularmente datada. As demais imperfeições, entretanto, podem vir a comprometer a longevidade da obra – mas isso é algo que só o tempo poderá confirmar.

Título original: Confissões de Adolescente
Direção: Daniel Filho e Cris D’Amato
Roteiro: Matheus Souza e Sylvio Gonçalves
Elenco: Sophia Abrahão, Malu Rodrigues, Bella Camero, Clara Tiezzi, Cassio Gabus Mendes, Olivia Torres, Christian Monassa, Hugo Bonemer, Tammy di Calafiori, Guilherme Prates, João Fernandes, Bruno Jablonski, Anna Rita Cerqueira, Eduardo Melo, Dieter Fuhrich, Cintia Rosa, Gabriel Totoro, Maria Mariana, Daniele Valente, Deborah Secco, Georgiana Góes, Thiago Lacerda, Caio Castro.
Lançamento: 10 de Janeiro de 2014
Nota:[duasemeia]

Eduardo Monteiro

Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou aqui tentando convencê-los que Encantada é um estudo de personagens subestimado, que Ela Dança, Eu Danço 4 não é um desperdício total de tempo ou que o documentário da Katy Perry tem mais camadas que muitas bacias de sedimentação por aí. E plantando outras sementes de discórdia em terrenos férteis nas horas vagas.