Crítica: A Cor Púrpura, de Steven Spielberg
Críticas de filmes Drama

A Cor Púrpura

thecolourpurple_2248424b-600x374 A Cor Púrpura

ESTADOS UNIDOS, Geórgia, início do século XX. Sociedade patriarcal, machista e racista. Em A Cor Púrpura, todo esse contexto serve como plano de fundo para a história de Celie Harris, que nasceu mulher, negra e, segundo os homens na sua vida, feia. Mas dona de uma ingenuidade para encarar as dificuldades do mundo, ela encontra nos lugares mais improváveis a força para enfrentá-las.

Celie cresceu abusada e maltratada pelo pai e posteriormente pelo marido, e acaba por perder o contato com a irmã, única pessoa que parece amá-la. É nas amizades que surgem nesse mundo tão restrito que ela descobre como ser feliz e superar essa e outras perdas.

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Mais que questões raciais, o foco de A Cor Púrpura está no relacionamento de seus personagens. Com uma Whoopi Goldberg no papel principal em apenas seu segundo filme – no que parece ter sido uma eternidade antes de Mudança de Hábito -, o elenco é completo por Danny Glover, Margaret Avery e até Oprah Winfrey, que já no ano seguinte se tornaria a rainha dos talk shows da TV americana. Todas as atrizes foram indicadas a Oscares e Whoopi levou um Globo de Ouro por sua interpretação.

Quando consegue focar nos personagens e suas histórias é que o diretor Steven Spielberg entrega o seu melhor. Embora seja muito competente em realizar maravilhas técnicas, raramente esses dois aspectos dialogam bem nos seus filmes. Eles ora se destacam pelos espetáculos visuais que são – seja Tubarão, ainda em 1975, Jurassic Park ou mesmo Guerra dos Mundos -, ora pelos dramas emocionantes – entre eles A Lista de Schindler e até E.T.

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Spielberg se mostra um grande diretor quando equilibra as boas histórias com esmero técnico. Foi isso que ele fez em Munique, Os Caçadores da Arca Perdida e O Resgate do Soldado Ryan. E é isso que faz em A Cor Púrpura. Os planos que brincam sempre com a fotografia de Allen Daviau (que também iluminou Império do Sol e E.T.) são um complemento visual para uma grande história ao som da trilha de Quincy Jones, maior produtor da black music na época – e um filme grande.

É a duração a maior causadora do ritmo que oscila entre bons momentos dramáticos e outros tantos que não precisavam fazer parte da adaptação do livro de Alice Walker, pois pouco contribuem para o progresso da trama ou dos personagens – e nem é preciso ler a obra para saber disso. Mas quando melhor funciona, A Cor Púrpura consegue ir além do dramalhão de época e emociona.

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Com performances de qualidade e uma beleza técnica que até hoje inspira filmes da mesma temática, o longa se recusa a ser apenas mais um a discutir a hipocrisia e os preconceitos do sul da América para colocar no coração da história personagens femininas muito bem construídas, sem relegá-las a papéis secundários e estereótipos há muito disseminados. Elas são, ao mesmo tempo, delicadas e fortes, engraçadas e sofridas, e mostram que, no fim das contas, o que a cor é o que menos importa.

Título original: The Color Purple
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Menno Meyjes
Elenco: Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey, Margaret Avery, Danny Glover
Lançamento: 1985
Nota:[quatro]

Nathália Pandeló

Jornalista, diretora de conteúdo na Build Up Media e amante de música, cinema, literatura e TV.