Crítica: 50 Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson
Críticas de filmes Romance

Crítica: 50 Tons de Cinza

50 Tons de Cinza - Christian Grey

Sem nenhuma cena realmente ousada, filme peca por ser medíocre e não cumprir a sua parte do acordo: tem safadeza nenhuma aqui!

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ANTES DE MERGULHAR EM 50 TONS DE SAFADEZAS, melhor deixar algumas coisas bem claras: 1) Apesar do texto a seguir defender o longa-metragem, não se deve considerá-lo como um elogio: o filme é, no mínimo, medíocre; 2) Como qualquer pessoa comum, eu gosto de fazer sexo (“eu não faço amor. Eu fodo. Com força”), e não tenho problema nenhum em falar abertamente em qualquer ambiente sobre o assunto; 3) A leitura ou não do livro não afeta em absolutamente nada na análise da adaptação para os cinemas, pois se tratam de duas obras de mídias distintas. Eu, em particular, li o livro – e dei boas risadas com a seu puritanismo, conservadorismo, ingenuidade e com o fato dele apresentar uma visão superficial do universo BDSM. Com essas informações em mente, queridos leitores, podemos avançar.

50 Tons de Cinza (50 Shades of Grey, 2015) é um romance sobre duas pessoas completamente diferentes que se apaixonam e buscam maneiras de se adequarem um ao outro. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma jovem inexperiente e insegura, como milhares de garotas do mundo real, que se depara com um predador sexual chamado Christian Grey (Jamie Dornam), cujas preferências sexuais são um tanto “peculiares”, envolvendo correntes, roupa de couro, cordas e afins. Existe uma diferença brutal entre a realidade de cada um, tanto financeira quanto psicológica, mas, ao final, se trata apenas de uma relação entre duas pessoas que seriam bem mais felizes se fizessem terapia. Juntos, quem sabe?

No meio de tantas críticas ao longa-metragem, considerado como “uma apologia ao abuso”, é preciso lembrar que o cinema já demonstrou o que é realmente é abuso. O exemplo mais marcante é o de Glenn Close, em Atração Fatal (obra que faz com que todo espectador inteligente reconsidere qualquer possibilidade de relação extraconjugal). O abuso deveria ser observado em relações em que uma das partes simplesmente se torna maníaco-obsessivo com a outra, praticando atos de violência física e psicológica. Steele é uma garota inexperiente que se encontra diante do primeiro cara que a fez considerar tirar a sua calcinha. Como geralmente acontece, no calor do amor, em um primeiro momento, nos esquecemos de pensar em nós mesmos para embarcar nas ideias e preferências do nosso interesse. E.L. James quis que sua protagonista encontrasse o amor em um homem frio, calculista, controlador, e, além de tudo, praticante de BDSM. De maneira alguma uma mulher virgem se sentiria apta a aceitar as regras e estilo de vida de um homem mais experiente, e assistimos a isso em cena, quando a personagem se esforça para tentar descobrir se compartilha dos mesmos gostos do seu amado. O que descobrimos é o visível desconforto misturado com a curiosidade, que chegam ao fim quando ela é exposta a um tratamento radical – após pedir por isso.

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O personagem de Grey possui sérios problemas psicológicos, mas isso não significa que ele seja um monstro como tantas críticas com uma pretensão enorme em soarem inteligentes e bem embasadas afirmam aos quatro ventos. O que torna o julgamento ao comportamento do personagem mais feroz, imagino, seja a questão do sexo. Como se fosse errado buscar alguém para dividir seus gostos e preferências – por mais estranhas e exóticas que essas sejam. Parece que a máxima “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” está sendo desrespeitada ao máximo, afinal, quem critica a falta de personalidade de Steele (que pode ser explicada por sua inexperiência e juventude), parece ignorar que, justamente por isso, comete o mesmo erro, querendo impor-lhe o que é certo ou errado. Chegaram até mesmo a escrever que a decisão da personagem de preparar o café da manhã após perder a virgindade seria uma alusão ao comportamento feminino padrão da década de 1950, época em que o machismo era ainda mais forte do que é hoje, mas certamente longe da afetação atual. Vivemos num mundo em que que os conceitos politicamente corretos se confundem com a liberdade de escolha de cada pessoa, e quando criticamos uma obra, parece que mesmo aquelas pessoas consideradas como referências, se esquecem que o cinema não precisa ser a utopia maravilhosa que suas mentes tanto desejam. Tudo bem que determinadas vozes estão seriamente contaminadas e enviesadas por seus próprios interesses, incapazes de aceitar que exista um mundo além do próprio umbigo. Por isso, quando se deparam com obras que retratam a mediocridade real a que estamos acostumados a viver (mas não a concordar), sentem uma necessidade crônica de encontrar problemas em situações banais. A era do politicamente correto é chata pra burro.

Se no livro as descrições das transas eram risíveis, dignas de leitoras da Capricho que acabaram de perder a virgindade e se cansaram de desejar luxúria em Jane Austen e precisaram apelar (sendo otimista, claro, já que apostaria que muitos leitores de 50 Tons sequer sabem quem é Jane Austen), o filme tenta criar um meio termo, mas acaba sofrendo do mesmo problema da obra original: ser desprovido de sensualidade, o que é um contrassenso para um produto que é vendido como a coisa mais excitante que já se teve notícia. Talvez para as pessoas mais velhas, ler um best-seller que finge falar de sexo possa ser excitante (embora não me lembro de ter encontrado tantas palavras-chave para esse tema, tamanho o pudor do texto – que é mal trabalhado). De repente pode criar possibilidades para apimentar uma vida tediosa a dois. Para os mais jovens, no entanto, só mesmo uma identificação com a inexperiência e ingenuidade de Anastacia Steele pode causar alguma reação abaixo do umbigo. O cinema, óbvio, é bem mais gráfico do que a literatura, e existia a chance de algumas passagens funcionarem. Não acontece. E os cuidados excessivos para não permitir que a nudez soe gratuita chegam a ser irritantes. É como se decidissem filmar um documentário sobre futebol que não mostrasse gols, bolas ou jogadores. Essa falta de ousadia é um dos principais problemas da obra como um todo, já que o elenco é razoável. Possivelmente, Dornam e Johnson ocuparão os lugares que Robert Pattinson e Kristen Stewart assumiram quando estavam em destaque com a franquia Crepúsculo. Se são atores de qualidade, apenas as escolhas fora da trilogia 50 Tons deixarão claro. A trilha sonora é agradável, começando com uma versão de “I Put a Spell on You”, e incluindo também Beyoncé com uma “Crazy in Love” bem diferente da original. Mais sexy, digamos assim.

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As comparações com a saga Crepúsculo, aliás, não poderiam ficar de fora. Anastasia Steele e Isabella Swan são praticamente a mesma pessoa. Ambas são fisicamente parecidas, trabalham bem seus lábios (não desse jeito, seu pervertido!), carecem de falta de autoestima, se apaixonam por pessoas complicadas e ainda têm em comum um amigo que se mostra interessado nelas. Eu até me daria ao trabalho de aprofundar melhor nessa análise, mas a diretora de 50 Tons de Cinza foi bem esperta ao fazer piada com as semelhanças: em uma cena, Steele liga para Grey e começa a dizer: “Você me quer, não me quer, vai, volta”. Assim se coloca por terra qualquer motivo sensato para apontar as semelhanças como críticas negativas. Na verdade, a narrativa sequer se esforça em trabalhar com o tal amigo apaixonado. Imagino que seja justamente para evitar essas comparações em um primeiro momento.

Há um forte movimento para polemizar e criticar a obra pelos motivos errados, o que provavelmente só aumentará a sua bilheteria. Para todos aqueles felizes da vida, que sabem diferenciar bem aquilo que merece ou não ser criticado em uma obra (levando sempre em consideração o seu público-alvo, coisa que críticos de cinema em geral ojerizam), 50 Tons de Cinza acaba sendo uma obra divertida. Os detalhes sutis das reações de Steele garantem algumas risadas, mas não passa disso. Falta muita sensualidade para chegar aos pés de obras como 9 ½ Semanas de Amor, Os Sonhadores, Irresistível Paixão e Lua de Fel. Acima de tudo, falta maturidade e profundidade para que as adaptações cinematográficas consigam superar as versões originais. Citaria qualidade, mas os livros são tão ruins que seria uma enorme decepção se os próximos filmes fracassarem até nisso.

50 Tons de Cinza (50 Shades of Grey, 2015) Dirigido por Sam Taylor-Johnson. Baseado em livro de E.L. James. Com Jamie Dornam, Dakota Johnson

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.