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Crítica: Alguma Coisa Assim

Boyhood brasileiro. Muitos têm comparado Alguma Coisa Assim com o filme de Richard Linklater, que foi gravado entre 2002 e 2013. Bom, não é bem assim em termos de conteúdo, mas, se considerarmos que a produção nacional também foi gravada num período de dez anos, cabe certa comparação.

Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes) foram apresentados ao público pela primeira vez em 2006, quando o curta homônimo foi lançado nos festivais de Cannes, Gramado e vários outros. Foi um sucesso de crítica e ganhou prêmios merecidos. Afinal, os 15 minutos que passamos com os protagonistas podem ser demasiados curtos para tanto carisma e qualidade de roteiro. Acompanhar as aventuras dos dois adolescentes na noite paulistana e as conversas que têm sobre a vida e sexualidade (Caio é gay e Mari é apaixonada por ele) é uma delícia.

Em 2014 foi lançado outro curta, intitulado Sete Anos Depois, o qual não tive a oportunidade de ver. Juro que tentei, mas não consegui assisti-lo até hoje. O mesmo nos mostra os personagens sete anos depois do curta inicial, em 2013. Desta vez, mais velhos e maduros, eles voltam a percorrer São Paulo, mas Caio está com uma novidade: aprendeu a se aceitar e lidar com sua sexualidade e vai se casar.

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No longa de 2018, os diretores Esmir Filho e Mariana Bastos nos levam às duas aventuras anteriores novamente (nem todo mundo assistiu às mesmas), assim como ao momento atual dos dois: Berlim, em 2016. Aqui, aprendemos que Caio se separou do marido e passará algumas semanas na Alemanha para desenvolver uma pesquisa sobre embriões. Mari já vive no país há algum tempo, onde trabalha em um escritório de arquitetura. Obviamente, ambos se reencontram e uma série de eventos acontecem à medida em que se aventuram em território alemão.

São apenas 80 minutos de filme. Nada contra o tempo, pois o que importa é o que está incluso dentro desse período. Antes do Pôr do Sol também tem duração semelhante e é um dos meus longas preferidos. O problema de Alguma Coisa Assim é que nunca chega a nos conquistar como o curta de 2006. Abras e Antunes estão perfeitos, entrosados e com uma química extremamente convincente. Porém, aquelas conversas profundas sobre a vida – a cena do supermercado em é sensacional – não foram reproduzidas aqui.

Vemos Mari e Caio conhecendo a cidade e curtindo baladas, mas nunca tendo uma conversa realmente marcante. Em várias oportunidades isso poderia ter acontecido, como a cena em que ele conversa com o ex pelo computador, visivelmente mal, e a amiga chega. O único momento em que isso acontece na tela é no último ato, quando eles finalmente se abrem um para o outro. E durante uma conversa emocionante de Mari com a mãe pelo telefone (Vera Holtz).

No fim das contas, é uma produção que deixa um gostinho de quero mais, só que não por causa da alta qualidade; deixa a desejar porque as expectativas não foram atendidas. Faltou o ingrediente mais importante, que me fez se apaixonar pela história dos dois há 12 anos: as conversas. O desfecho chega ser surpreendente de certa forma, mas é tarde demais. Uma pena porque poderiam ter abordado diversos assuntos; muita coisa rolou nas vidas deles.

Pelo lado positivo, é interessante ver a transformação física e psicológica dos protagonistas nesses três momentos cruciais de suas vidas e como o mundo dá voltas. A vida pode nos surpreender bastante, quando a gente menos espera.

 

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