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Crítica: Almas Negras – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #44

Crítica Almas Negras - Mostra de SP

De James Cagney a Al Pacino, o Cinema se encarregou de estabelecer o gangster em uma figura cheia de glamour que, embora invariavelmente sofresse as consequências por seus atos criminosos antes do derradeiro “The End”, transbordava elegância através de seus trajes característicos, seu linguajar refinado e seu senso de moral particular. E mais: com cineastas como Francis Ford Coppola (trilogia O Poderoso Chefão), Martin Scorsese (Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros) e Sergio Leone (Era uma Vez na América), Hollywood transformou a máfia italiana em fonte garantida de filmes elegantes, refinados e repletos de charme – e mesmo quando optou por mostrar o lado “sujo” da máfia (como Brian De Palma fez em Scarface), o Cinema norte-americano sempre usou o universo dos gangsters para despertar nosso fascínio.

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E escrevi toda essa introdução para lamentar que o cineasta italiano Francesco Munzi, trabalhando com roteiro escrito por ele mesmo ao lado de Maurizio Braucci e Fabrizio Ruggirello e adaptado do livro-homônimo de Gioacchino Criaco, tenha feito neste Almas Negras provavelmente o filme de máfia mais aborrecido que eu já vi.

A trama de Almas Negras gira em torno do jovem Leo (Fumo), que, vivendo com o pai fazendeiro (Ferracane) na zona rural de uma cidadezinha no interior da Toscana, passa a ser cobiçado pelo tio Luigi (Leonardi) para entrar em seus negócios criminosos no tráfico de drogas e de armas, sendo sempre coibido por seu tio Rocco (Mazzotta), um “homem de família” que mora na capital. Envolvendo-se em uma série de pequenos conflitos com a polícia, Leo ppassa de coadjuvante a protagonista dos conflitos de sua família quando uma tragédia (que obviamente não revelarei) acontece e um acerto de contas com um mafioso rival torna-se inevitável.

Apesar do personagem interpretado (de maneira apática, diga-se de passagem) por Giuseppe Fumo ser aquele que enfrenta o arco dramático mais definido, é o criminoso vivido por Marco Leonardi que assume o posto de figura mais importante da narrativa durante boa parte da projeção – e o tratamento óbvio e estereotipado que o roteiro dá ao sujeito e que é reforçada por seu intérprete é evidência de sua total falta de sutileza para lidar com a ambiguidade do imaginário da figura do gangster: sádico como a cena em que Munzi enquadra seu rosto em plano americano e o revela sorrindo de prazer ao degolar uma cabra e jamais deixando dúvidas de sua natureza escorregadia e nada confiável, Luigi é um homem corrompido que não parece se importar sequer com seus próprios familiares, atraindo Leo para o seu covil não por vislumbrar uma “carreira” promissora para o sobrinho, mas simplesmente por querer usar sua mão de obra barata (ou melhor, gratuita e voluntária).

Sempre associado a sexo sem compromisso, excesso de bebida e carteado através de planos óbvios que só faltam trazer o subtítulo: “vocês entenderam que esse cara é do mau, né?”, Luigi acaba funcionando como um símbolo do que há de errado com o filme em que está inserido, que, além de tratar a máfia italiana como um grupo de homens desinteressantes e que jamais falam uma única frase que seja digna de nota, ainda vivem em um universo entediante que parece propositadamente parado no tempo para causar uma impressão de nostalgia.

Com um final óbvio quem pode ser previsto com meia hora de antecedência, Almas Negras é uma grande decepção para os fãs de filmes sobre a máfia italiana.

Poster Almas Negras - Mostra de SP

Almas Negras (Anime Nere, Itália, 2014). Dirigido por Francesco Munzi. Escrito por Francesco Munzi, Maurizio Braucci e Fabrizio Ruggirello. Com Marco Leonardi, Peppino Mazzotta, Fabrizio Ferracane, Barbora Bobulova, Anna Ferruzzo, Giuseppe Fumo, Pasquale Romeo, Vito Facciolla e Aurora Quattrocchi.

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