Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Crítica: Anticristo (2009)

Melhores Filmes de terror dos anos 2000 - AnticristoAnticristo é um drama. Porém, existe um limite na dor suportada pelo ser humano que, quando ultrapassado, rompe a barreira que separa o drama do terror.

A figura pitoresca do cineasta dinamarquês Lars von Trier suplanta, por vezes, a genialidade de sua obra, que é colocada de escanteio, sob o argumento medíocre de que o objetivo do diretor é apenas chocar e criar burburinho em torno de seu trabalho. Na realidade, em Anticristo, von Trier choca por escancarar a natureza, arrombando todas as suas camadas.

Os protagonistas interpretados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (mais
um trabalho magistral de ambos) não são nomeados, permanecendo na crueza de serem
apenas Ele e Ela. A tragédia da morte do filho pequeno afeta o casal de maneira distinta:
Ela, tomada pela culpa e pela dor, é sugada por uma profunda depressão, enquanto Ele,
terapeuta profissional, decide tratar da esposa por seus próprios métodos. Os dois se
isolam em uma cabana chamada por eles de Éden (ironicamente, homem e mulher
chegam ao paraíso após o pecado), onde buscarão a cura pelo enfrentamento do medo.
Lars von Trier, como de costume, divide a película em capítulos: Prólogo, Luto,
Dor, Desespero, Os Três Mendigos e Epílogo.

- Advertisement -

Na primeira parte, o diretor utiliza o preto e branco, a música clássica e a câmera lenta para estilizar, de forma brilhantemente cruel, a transa sensual dos pais no banho, enquanto o filho se atira pela janela. O gozo da mãe coincide com o último suspiro de sua cria, como se o seu deleite e o seu pecado fossem os culpados pela maldição do descendente. E essa visão cristã de responsabilizar a mulher pela condenação da humanidade permeia todo o desenvolvimento da trama e a evolução da personagem de Gainsbourg, que trava uma verdadeira batalha com a natureza e a sua própria natureza (chegando ao limite de
mutilar o próprio clitóris, como forma de encerrar o seu direito desprezível de sentir prazer).

Comumente retratada como a principal prova da existência de Deus, em
Anticristo a natureza é a igreja de satã e o caos reina. As florestas, as águas, os animais,
assim como as pessoas, não possuem essência divina e, sim, perversa. A própria
protagonista, em seu crescendo malevolente, depõe em favor do exposto no simbolismo
dos Três Mendigos, o cervo, o corvo e a raposa, que representam as fases de seu
tratamento. Diante da temática e dos caminhos tomados pelo cineasta, impossível não
questionar uma suposta mensagem misógina na obra.

Analisando o cenário todo em perspectiva, é inegável que Anticristo é um filme
que enseja perguntas. E para tantas perguntas, as respostas quase sempre podem ser sim.
Quase sempre.

Anticristo é uma adaptação irônica e remodelada da história de Adão e
Eva? Sim.

Anticristo é uma homenagem ao livro homônimo de Friedrich Nietzsche?
Sim.

Anticristo é um desabafo terapêutico de um artista depressivo que não sabe lidar
com seus monstros? Sim.

Anticristo é um filme de terror? Sim.

Anticristo é uma obra com uma mensagem misógina? Dissecando os discursos do autor, sua história e seu comportamento com atrizes, a resposta é que ele provavelmente seja misógino, mas o filme em si aparenta mais ser uma crítica radical a ideais religiosos de opressão feminina.

Comentários