Crítica: As Duas Irenes (2017) | Cinema de Buteco
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Crítica: As Duas Irenes (2017)

Aos 13 anos, mesmo que muitos digam o contrário, a vida de uma garota pode ser muito difícil. Há o desenvolvimento do corpo (se a menina tem seios volumosos, os garotos ficam em cima o tempo todo; se tem seios pequenos, recebe apelidos maldosos), a cobrança por uma postura mais madura e responsável, os estudos, suas próprias vontades e muitas curiosidades e dúvidas.

Para Irene, as coisas ficam ainda mais difíceis quando descobre que o pai tem uma segunda família, incluindo uma filha também chamada Irene e que tem a sua idade. Ao se aproximar da meia-irmã, Irene repara em como suas vidas são diferentes. Enquanto mora com seus pais e irmãs em uma casa confortável e sob restrições de comportamento e de modo de se vestir, Irene percebe que a meia-irmã reside em uma casa mais humilde, supostamente acredita ser filha única e tem uma relação diferente com garotos. Ela é extrovertida, animada, atrai olhares masculinos e gosta de ir ao cinema. Irene 1 encontra o tédio diariamente, e convive com uma irmã mais velha ansiosa pelo baile de debutantes.

Uma passa, de certo modo, a desejar alguns elementos da vida da outra, pois percebem as diferenças no conceito de liberdade. Irene 1 é bastante simples e conserva um jeito inocente, mas Irene 2 está familiarizada com saltos e costuma agir por impulso.

A história de As Duas Irenes, que se passa em uma cidadezinha do interior, mostra a sensibilidade do diretor Fábio Meira ao retratar a juventude em um cenário livre de distrações como a internet e grandes eventos, o que implica, aos personagens, se manterem mais presentes, e torna a aproximação entre irmãs necessária para Irene 1.

As duas jovens atrizes (Priscila Bittencourt e Isabela Torres) se mostram muito competentes e deixam transparecer as angústias e a insegurança da idade. Marco Ricca (premiado no Festival de Gramado com o prêmio de melhor ator coadjuvante), no papel do homem que tem uma vida dupla, brilha e mostra o perfil do chefe de família que trabalha muito e espera ser servido na mesa de jantar de casa. Tunico, seu personagem, é o retrato do machismo presente na cultura do país e de como nos acostumamos com este perfil. A propósito, a pesquisa feita por Meira, para compor seu primeiro longa, mostra que a prática de manter duas famílias, incluindo filhos que compartilham o mesmo nome, é mais comum do que muitos acreditam.

Os elementos que compõem As Duas Irenes como infidelidade, adolescência, descobertas e família, transformam o filme em uma obra para o público jovem, sem deixar de lado os mais experientes. A trilha sonora, com músicas que deixam o clima dos anos 1960 no ar, transmite o estado de espírito dos personagens.

O filme levou mais três prêmios no Festival de Gramado de 2017: roteiro, direção de arte e melhor filme para a crítica, e chega aos cinemas através do projeto Vitrine Petrobrás, com ingressos a preços que variam de R$6,00 a R$12,00. Ao lado de Como Nossos Pais e Bingo: O Rei das Manhãs, As Duas Irenes integra o time que ilustra a boa fase do cinema nacional.

 

Graciela Paciência

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Stephen King, clássicos e cinema europeu. Suas metas de consumo estão (quase) sempre atrasadas, mas o importante é seguir em frente.