Crítica: Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância)

Melhor Ator Oscar 2015 - Michael Keaton

Filme estrelado por Michael Keaton faz uma brincadeira com a indústria e o ego dos atores, mas seu principal trunfo está na direção de Iñárritu e na fotografia de Lubezki.

Melhor Ator Oscar 2015 - Michael Keaton

DIRIGIDO POR ALEJANDRO GONZALEZ IÑÁRRITU, Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman, 2014) é um daqueles filmes que nos fazem apaixonar novamente pelo cinema. A obra nem precisa chegar ao fim para você refletir: “Puta que me pariu! Que filme sensacional, véi!”. Além de um trabalho técnico impecável, especialmente fotografia, direção, atuação e trilha sonora, a produção acerta ao cutucar a ferida de todos aqueles que trabalham com comunicação e entretenimento em geral: a enorme necessidade de ser reconhecido, de ser amado, de ser adorado, de se sentir importante. Ou, se preferirem, Birdman é um filme sobre o ego daqueles que fazem a indústria do cinema funcionar.

A sinopse de Birdman é bem simples: “Riggan (Michael Keaton) é um ator decadente em busca do reconhecimento da crítica e do público. Após deixar de lado uma franquia de sucesso, no qual interpretava um herói, ele se torna um diretor de teatro disposto a provar que é um profissional sério e talentoso”. A partir disso são exploradas as diversas possibilidades de aprofundar os personagens, além do desfile de qualidade técnica num longo “plano-sequência”, uma trilha sonora inspirada e a certeza de estar assistindo a um dos filmes mais interessantes do ano.

Quando digo “plano sequência”, com as aspas mesmo, é porque não é bem assim. O diretor tenta nos convencer de que o longa-metragem inteiro foi filmado sem nenhum corte, num artifício semelhante ao utilizado por Alfred Hitchcock em Festim Diabólico, mas a verdade é que os cortes estão presentes. O formato da narrativa pode surpreender e deixar de queixo caído até os mais leigos que até então sequer sabiam o que era o tal plano-sequência (que se você não entendeu ainda, se trata de uma sequência sem cortes). Para os cinéfilos de plantão, é um deleite visual de arrancar lágrimas e nos deixar sorrindo como idiotas.

Birdman poderia ser resumido facilmente pela sua exuberância técnica, fruto da qualidade inquestionável do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar por Gravidade, outra obra cheia das firulas técnicas e visuais). No entanto, a obra consegue ser mais do que uma aula de direção, fotografia e edição. Ao incluir no elenco atores que parecem interpretar a si mesmos sem ter muita preocupação com isso, Iñárritu arranca de Michael Keaton e Edward Norton, uma de suas melhores atuações na carreira. Por coincidência ou não, o personagem de Keaton abandonou a franquia Birdman em 1992, ou seja, há 22 anos (o longa-metragem é de 2014). Exatamente o mesmo período que se passou desde que Keaton vestiu o manto do Homem-Morcego em Batman – O Retorno, de Tim Burton. E a piadinha poderia parar por aí, mas Norton interpreta um ator cheio de manias e com a vontade de aparecer mais do que qualquer um, uma figura bem difícil que prefere ignorar o roteiro e fazer tudo do seu jeito – exatamente da maneira como o próprio Norton é visto em Hollywood, visto que sua presença em Hulk deixou todos os membros da produção traumatizados pela mania de perfeccionismo e jeito mandão do ator. Tanto Keaton quanto Norton foram agraciados com uma indicação justíssima ao Oscar de Melhor Ator e Ator Coadjuvante, respectivamente.

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Zach Galifianakis (da trilogia Se Beber, Não Case!) aparece como um produtor oportunista e interesseiro. Ainda que tenha pouco tempo em cena, é o suficiente para se fazer entender como um cara que pode dar bem mais do que estamos acostumados. Emma Stone, a Gwen Stacy dos filmes da franquia O Espetacular Homem-Aranha, também recebeu reconhecimendo da Academia com uma indicação na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante – a primeira de sua carreira. Ela interpreta a filha de Riggan, uma garota que aparece andando pelos bastidores do teatro e enxergando o pai como um homem fracassado e derrotado pelo tempo.

Em um ano em que os bateristas já tiveram destaque e atenção para se tornarem mais do que aquelas criaturas estranhas que se escondem atrás de um instrumento no fundo do palco, Birdman pega carona no seu concorrente Whiplash – Em Busca da Perfeição e nos dá uma trilha sonora genial do baterista Antonio Sanchez. Com uma batida tribal que nos faz sentir toda a tensão dos diálogos e dos seus personagens, somos surpreendidos quando bem de repente, encontramos um baterista praticando no meio do teatro ou nas ruas próximas. Isso faz com que a trilha sonora seja parte da própria narrativa, o chamado som diegético.

Apesar de tudo que foi dito acima, o mais interessante de Birdman é o conflito vivido por Riggan. Na abertura fica explícito que o personagem possui um senso de realidade bem diferente do das outras pessoas e parece realmente acreditar ser uma pessoa superior, afinal, quem é que pode flutuar durante uma meditação, não é mesmo? Sua consciência, na forma do herói Birdman, lhe diz que deveria deixar de lado essa baboseira para críticos e se aventurar no mundo fácil do entretenimento, aonde todos o desejam de volta. Paralelamente, Riggan precisa lidar com diversos outros problemas: do problemático ator substituto que fica de pinto duro no meio do palco; da filha que não o respeita; dos seus próprios conflitos que geram dúvidas sobre ele possui o talento necessário para dirigir uma obra tão importante; dentre outros detalhes que vão se agravando no desenvolvimento da trama até o climax na apresentação da peça para o público geral. Birdman se diverte fazendo piadas de si mesmo, da indústria cinematográfica e da futilidade dos atores e diretores. Deixa de importar se Riggan é louco ou não, já que ele é apenas parte de uma indústria de malucos.

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Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman, 2014) De Alejandro González Iñárritu. Com Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.