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Crítica: Casa Grande

Artigo produzido na cobertura da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

casa grande

Casa Grande tem início com um plano geral estático que, enquadrando uma mansão na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, mostra um homem de meia idade que sai de sua jacuzzi, se seca, entra pela porta da sala e passa por cada cômodo fechando portas e janelas e apagando as luzes para ir dormir. Parece apenas um pano de fundo para os créditos iniciais, mas é um anúncio do tema que o diretor Fellipe Barbosa abordará durante todo o longa: o declínio de uma família abastada que, diante de uma crise financeira, precisará mudar uma série de hábitos, se adaptar a uma rotina bem mais econômica e sem excessos e, claro, enfrentar seu profundo preconceito contra negros, nordestinos e pobres.

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O sujeito visto no primeiro plano da projeção é o economista Hugo (Novaes), que, desempregado e vendo suas reservas serem sugadas pelo ralo, decide começar a cortar custos, cogitando a ideia de demitir o motorista Severino (Cordeiro), cortando a mesada dos filhos adolescentes, Jean (Cavalcanti) e Nathalie (Melo) e aconselhando a esposa Sônia (Pires) a tornar-se revendedora de uma franquia de cosméticos. Em plena fase de formação emocional e intelectual, Jean está nos preparativos finais para o vestibular quando conhece Luiza (Amaya), com quem logo inicia um namorico – o problema é que ela é mulata, mora em São Gonçalo (subúrbio carioca), estuda em escola pública e, “para piorar”, pretende fazer uso das cotas raciais para ingressar na universidade.

Usando a família de Jean como uma representação da elite branca reacionária que costuma olhar para as classes mais baixas com um profundo desprezo disfarçado de benevolência, Barbosa cria uma série de situações que, extremamente irônicas ao apontar o pensamento elitista– e absurdo – que predomina entre a burguesia, certamente atingirá seus objetivos ao levar uma parte da plateia a se compadecer diante da “tragédia” que se põe (oh! Coitadinhos!) sobre a vida daqueles personagens. Para a outra parcela do público, porém, ouvir Jean chegar à mesa do café-da-manhã e reclamar que “só tem cottage” ou Sônia responder ao filho que ele não pode pegar ônibus “porque nós estamos no Rio de Janeiro” representará momentos de riso da total alienação daqueles indivíduos.

As relações interpessoais desenvolvidas entre os personagens de Casa Grande, aliás, extremamente realistas em sua crítica ao status quo de qualquer bairro nobre de uma grande capital brasileira, justificam o título do projeto ao corresponderem exatamente aos padrões vividos por senhores e escravos na época colonial: Jean é amigo da empregada Rita (Pinheiro) e acha que tem o direito de ter aulas sexuais com ela por ser seu patrão, Hugo demite Severino mas não quer pagar-lhe seus direitos trabalhistas (“No Brasil, patrão não ganha causa trabalhista não!”, reclama – não dá uma peninha?), Sônia teme que Luíza queira se envolver com seu filho para “se aproveitar” de sua condição social e daí por diante.

É verdade que Fellipe Barbosa (e Karen Sztajnberg, co-autora do roteiro) acabam sendo didáticos demais em alguns momentos, em especial na longa discussão acerca das cotas raciais que se dá no primeiro almoço de Luiza com a família de Jean, mas, em um país em que ainda xinga-se nordestinos de burros por não votarem no candidato que os agrada, chama-se o maior programa de redistribuição de renda de nossa História de “Bolsa Esmola” e argumenta-se que os negros não merecem cotas por serem plenamente capazes de competir de igual para igual com seus colegas brancos (como faz um coadjuvante aqui sem parar para pensar que, apesar de negro, ele tem as mesmas chances justamente por estudar na mesma escola particular que a maioria branca de sua sala), apontar o nonsense dos “argumentos” da elite separatista nunca é demais.

Beneficiado por um elenco exemplar que apresenta os jovens Thales Cavalcanti e Bruna Amaya como verdadeiras revelações e acerta em cheio no casting do “global” Marcello Novaes para viver o patriarca de sua família central, Casa Grande pode ser um filme pouco sutil de um cineasta que ainda precisa lapidar seu estilo; mas é também uma obra provocadora e que revela em seu jovem diretor não apenas um novo talento atrás das câmeras, mas também uma mente lúcida e disposta a discutir de maneira inteligente os dilemas sociais do nosso país.

Casa Grande (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Fellipe Barbosa. Escrito por Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg. Com Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Alice Melo, Bruna Amaya, Alice Melo, Gentil Cordeiro e Clarissa Pinheiro.

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