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Crítica: Culpa (2018)

País vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro três vezes (A Excêntrica Família de Antônia, em 1988, Pelle, o Conquistador, em 1989, e Em um Mundo Melhor, em 2011), a Dinamarca costuma se destacar na categoria, com filmes que abordam diferentes temas e narrativas que aguçam a curiosidade do espectador. Um exemplo disso é o excelente A Caça, que representou o país na edição de 2014 da premiação.

Culpa (The Guilty), de Gustav Möller, é um modelo do trabalho primoroso do cinema feito no país. O filme passou pelos festivais de cinema de Rotterdam e Sundance e representa a Dinamarca na principal premiação americana. Na história, o policial Asger (Jakob Cedergren) aguarda o julgamento que poderá colocá-lo para trabalhar nas ruas novamente. Enquanto isso, ele trabalha na emergência. Sua rotina tem uma reviravolta quando, perto de acabar seu turno, o policial atende a um pedido de socorro. Uma mulher sequestrada está em um carro em movimento, sem saber qual o  destino que o condutor do veículo, seu ex-marido, tem em mente, e com muito medo do que pode lhe acontecer. Para falar com Asger, ela simula uma conversa com a filha, a pequena Mathilde. Mas a chamada é desligada de repente, deixando Asger inconformado. Com um computador e o telefone, o policial se empenha em localizar a vítima e providenciar socorro para a mesma.

O filme se passa inteiramente na delegacia, sempre com Asger em quadro. É um suspense eletrizante ambientado em um único cenário e mexe com a cabeça do espectador de maneira impiedosa.  Ao longo dos 85 minutos de filme, o policial compartilha a sua ansiedade, agonia e aflição com o espectador. Este, por sua vez, embarca na aventura do personagem com a missão de resgatar a vítima e fazer com que ela volte para casa sã e salva.

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O roteiro de Gustav  Möller e Emil Nygaard Albertsen permite que o espectador perceba, no mesmo ritmo de Asger, um cenário que é formado aos poucos, através de conversas por telefone com outros profissionais que trabalham emergências e com outras pessoas que fazem parte da história da mulher em perigo O filme forma, aos poucos, um quebra-cabeça.

A maior arma de Mölle é Jakob Cedergren. O ator entrega uma atuação sólida, com reações ponderadas, de acordo com cada nova situação enfrentada por Asger. Suas ações nos levam aos passos que determinam no que o espectador quer e vai acreditar. Por isso a sua surpresa é também a nossa, e acontece o mesmo com a sua culpa

A ideia do filme não é inédita. Temos aí Por um Fio (Phone Booth, 2002) como exemplo de história que se passa durante uma ligação, e diversos casos de narrativas que se passam em único ambiente como O Deus da Carnificina (Carnage, 2011) e Festim Diabólico (Rope, 1948). Mas Culpa tem o mérito de injetar uma carga de adrenalina inesperada no espectador e é mais intrigante do que a sinopse nos permite acreditar, além de carregar em suas costas um clima de tensão que poucos títulos conseguem.

É um dos grandes filmes que a 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo exibe, ao lado de outros 18 representantes de seus respectivos países no Oscar 2019. Você pode conferir os horários de exibição aqui.

 

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