Crítica: Ensina-me a Viver (1971)

Se há algo certo na vida de todos os homens, é a morte. E esse inevitável destino, vem já há muito tempo, sendo motivo de especulação, medo e suposição, em todos os continentes do planeta.

Cada cultura encara a morte de uma maneira peculiar dentro do conjunto de seus hábitos, costumes e religião. As civilizações mais antigas da Terra, já demonstravam interesse pelo assunto. Os egípcios, por exemplo, foram um povo bem peculiar no que diz respeito a esse tema. Eles acreditavam que a vida terrena era somente um estágio, e que as pessoas continuariam a existir depois da morte. Esse pensamento os levou a desenvolver um meticuloso processo de mumificação para preservar o corpo dos mortos para a vida no outro mundo.

Mesmo esse sendo um assunto que, para muitos, é perturbador, ele sempre esteve constantemente presente nas diversas expressões artísticas do ser humano. E claro que, ao longo dos tempos, o cinema, assim como outras artes, também usou a morte como tema de algumas de suas histórias. Existe um filme, em particular, que empregou essa temática como proposta central da narrativa, e que conseguiu grande ênfase no universo da sétima arte. Ensina-me a Viver, de 1971, é um destaque do cinema no que diz respeito a filmes cujo foco é a morte. O longa é baseado em um roteiro escrito por Collin Higgins, que foi publicado como um romance no ano de 1971. Neste filme, o desfecho é bem incomum. O protagonista Harold é um jovem obcecado pela morte. Ele, constantemente, frequenta funerais, e, está sempre simulando suicídios. Porém, essa estranha obsessão do personagem, muda quando ele conhece Maude, uma mulher de 79 anos, apaixonada pela vida, e por quem Harold se apaixona em certo momento da história.

Quando foi lançado, foi considerado um verdadeiro fracasso. Porém, com o passar dos anos, assim como acontece com outros filmes, Ensina-Me a Viver foi ganhando status e visibilidade entre críticos e espectadores. E, de alguns anos para cá, tornou-se um filme cujo título é relativamente popular, e que, normalmente, e na maior parte dos casos, cativa os espectadores que o assistem, e arranca elogios por parte dos críticos de cinema. Em 1997, o National Film Registry, conselho criado nos EUA para preservação de filmes na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, escolheu Ensina-Me a Viver para preservação por considerá-lo “culturalmente, historicamente e esteticamente relevante“.

Com certeza essa justificativa do National Film Registry é válida. É um filme culturalmente significativo, pois ele é capaz de despertar emoções profundas no espectador, e levá-lo a reflexão sobre a morte e sobre a vida. Esses dois pontos, no filme, se integram numa fórmula de drama e humor negro que compõe o roteiro. Há na história, um conflito entre os elementos paradoxais “morte” e “vida”. Harold almeja e admira a morte, já Maude, aprecia e aproveita cada segundo da sua vida. Talvez, a obsessão pela morte, não seja algo normal. Porém, é incorreto negarmos a morte, visto que ela faz parte do nosso futuro. Até que ponto devemos nos concentrar em refletir sobre a morte? Algumas culturas e alguns povos dedicam grande parte de sua vida a esse pensamento e buscam desvendar os enigmas presentes na morte. No período da Filosofia Socrática, por exemplo, esse foi um tema que rendeu debate. Platão julgava a morte como via para o pensamento filosófico. Para Platão, um filósofo não deveria temê-la. Nos diálogos do Fédon (diálogos escritos por Platão em seu período médio, que retratam a morte de Sócrates), os discípulos de Sócrates, nos momentos que antes do filósofo morrer, perguntaram: “Quer dizer que você não tem nenhum receio da morte; que você não está sentindo nenhum pouco de rancor; que não está se sentindo injustiçado; que não tem nenhum sentimento negativo em relação à morte?

Sócrates respondeu: “Como é que um sábio que estudou a morte durante toda a sua vida pode temê-la? Se a filosofia é o estudo da morte, o medo não faz o mínimo sentido. Durante toda a minha vida eu estive investigando a morte. Aprendi que, para me preparar para a morte, eu precisava me desapegar de tudo que é material, incluindo o meu corpo”.

Como eu posso me opor ao inevitável? Minha morte já está sentenciada. Já estou condenado e sei que vou morrer inevitavelmente. Só tenho que aproveitar esses breves momentos conversando com vocês de forma prazerosa. Isso é muito simples

E, se por um lado, devemos encarar a morte como fato da vida, por outro lado, até que ponto, devemos viver intensamente, deixando a morte de lado, mesmo sabendo que ela pode vir a qualquer instante? Algumas pessoas, como a personagem Maude do filme, preferem simplesmente jogar-se no presente e vivê-lo sem se preocupar com aquilo que não podemos evitar. Sêneca (celebre intelectual do Império Romano) afirmou “Morremos todo dia, pois todo dia nos é tirada uma parte de nossa vida: à medida que a idade aumenta, nossa vida diminui”.

Historicamente, Ensina-Me a Viver é relevante por ter deixar esse legado reflexivo, e por abordar a morte de maneira filosófica, expressiva, e de uma forma intensa e crua, como poucos filmes fizeram. Esteticamente, é um filme visivelmente belo, em que a fotografia transmite por si, com enorme sentimentalismo, todo o contexto que forma a dualidade da história.

Ensina-Me a Viver é, por fim, uma obra tocante e provocante no sentido de despertar sentimentos aos espectadores. É um filme dual, que pode ser forte e intenso, ou delicado e cômico. Talvez, dependa do que cada espectador queira ver, e de como cada indivíduo lida com esses dois aspectos abordados na história. Além de tratar de um tema tão significante, possui uma parte técnica competente, sendo muito bem conduzido pela direção, que apresentou um cuidado e capricho estético que proporcionaram ótimo resultado. Outro ponto positivo e que merece destaque, é o excelente roteiro, e a maravilhosa trilha sonora que é capaz de acompanhar toda a onda de emoção que a história carrega em si.

Juliana Vannucchi