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Crítica: Eu, Tonya (2017)

Na década de 1990, Tonya Harding era uma famosa e muito talentosa patinadora artística, porém seu nome ficou ainda mais conhecido, em 1994, após um incidente envolvendo sua principal rival durante as Olimpíadas de Inverno, Nancy Kerrigan. Mas Tonya tem uma história de vida que não pode ser resumida a “a atleta que conspirou contra a sua rival”, ela é muito mais do que isso e, principalmente, passou por uma infinidade de coisas antes de chegar o dia em que seu nome tomou as manchetes de jornal por motivos que nada tinham a ver com suas sensacionais performances. Eu, Tonya mostra o caminho percorrido pela atleta, passando pelos obstáculos pessoais e também aqueles enfrentados nas pistas de gelo.

Desde bem pequena, Tonya (Margot Robbie em uma atuação fantástica) demonstrava muito talento e tinha tudo para brilhar, mas a posição social de sua família não era considerada um exemplo. Enquanto as outras garotas tinham belas roupas e todo o tempo do mundo para se dedicarem ao esporte, Tonya levava uma vida tipicamente rural, cortando lenha ao lado do pai, enquanto suas roupas eram feitas por sua mãe. As outras patinadoras eram delicadas, contidas e graciosas, enquanto Tonya era desbocada, não largava o cigarro, usava classic rock em suas apresentações e vivia uma relação conturbada com Jeff Gillooly (Sebastian Stan), cheia de agressões físicas, desentendimentos e uma briga constante motivada pelo ego de ambos. Entretanto, Eu, Tonya não transforma a protagonista em vítima, mas questiona suas atitudes através de relatos da própria e de pessoas que conviveram com ela.

Esforçada. Essa é uma das palavras que podem descrever Tonya, mas com muitos tombos ela aprendeu que isso não bastaria para que fosse reconhecida dentro do esporte. A atleta teve que aprender, por exemplo, a lidar com a autoridade da mãe, LaVona (Allison Janey), que sempre acreditou em seu potencial, mas não tinha limites, e apresentou à patinadora uma relação abusiva, composta por grande pressão psicológica, ofensas e violência física.

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Além de todos os conflitos externos, é necessário lembrar que cada um pode ser o seu maior inimigo. Apesar de dedicada, Tonya tem suas fraquezas, como todos nós. O filme de Craig Gillespie expõe as falhas da atleta e de todos ao seu redor, incluindo o desejo doentio da mídia por escândalos, a onipresente falta de ética e o machismo que encobre alguns homens e deixa mulheres à mercê do temperamento do parceiro.

Além da história contada de maneira atraente e das interpretações sensacionais, preste atenção em outros elementos do filme, como a alternância entre drama e comédia, a incrível trilha sonora e a sensibilidade com que os temas como violência doméstica, exibicionismo e insegurança são tratados. O longa é tocante, entretanto não cai na armadilha da pieguice ao retratar a dura trajetória de uma personagem por quem torcemos. Suas três indicações ao Oscar (Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Edição) são muito bem justificadas.

Aqui não há verdade absoluta. Logo no início do filme, a mensagem exibida informa que o longa é baseado em entrevistas, sem ironia, muito contraditórias e totalmente reais com Tonya Harding e Jeff Gillooly. Os próprios atores se encarregam também dos depoimentos, o que dá a oportunidade de cada personagem de se defender da maneira que acha adequada.

Eu, Tonya, assim como a própria atleta, é um espetáculo à sua maneira. Se destaca por ter a sua própria identidade e não se enquadrar no modelo esperado de cinebiografia.

 

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