Crítica: Ex Machina, de Alex Garland
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Filme: Ex Machina: Instinto Artificial

O que nos define como seres autômatos e inteligentes? Nossa consciência? Nossas emoções? Nossa capacidade de exercer o livre arbítrio? Nosso instinto de sobrevivência? Ou talvez nossa alma, quem sabe? O grande trunfo de Ex Machina é a utilização das questões existencialistas aplicadas para as Inteligências Artificiais

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Ex Machina começa com a ida de Caleb (Domhnall Gleeson) para a residência isolada e paradisíaca de Nathan (Oscar Isaac), um jovem que construiu fortuna com algoritmos de busca na internet. O pretexto desta viagem é que Caleb faça um Teste de Turing em uma inteligência artificial criada por Nathan. A idéia básica do teste é confirmar se a I.A. é mesmo autônoma e autêntica. E aqui já vemos a primeira referência ao teste Voight- Kampff de Blade Runner, filme de Ridley Scott baseado em livro de Philip K. Dick. Mas se no filme de 1982 a idéia era tentar identificar um andróide disfarçado de homem comum, em Ex Machina o teste tenta comprovar que uma inteligência artificial não emula sentimentos e pensamentos, mas sim sente e raciocina de forma autônoma.

No decorrer da narrativa, Caleb passa a se encontrar com Ava (Alicia Vikander) e passa a inquiri-la na busca de uma evidência de que ela não passa de programação fingindo ter uma inteligência equiparável com a de um humano. O formato dessas conversas se dá através de um espelho, lembrando muito as conversas que Clarice Starling (Jodie Foster) tem com Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) no premiado Silêncio dos Inocentes.

Alternando com as sessões de elicitação, Caleb tem diálogos com Nathan para conhecer melhor seus preceitos básicos na criação de Ava. E é aí que o filme passa a ficar interessante. Primeiro descobrimos que Nathan utilizou os dados gravados de milhares de usuários na internet para entender o comportamento de cada um deles, ao usar este enorme banco de dados de comportamento na confecção da inteligência artificial, o filme faz referência a psico história, ciência fictícia criada pelo personagem Heri Seldon do livro Fundação de Isaac Asimov.

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Outro ponto interessante é quando Caleb questiona Nathan sobre a sexualidade de Ava, sugerindo que em tese ela poderia ser uma simples caixa cinza. Mas a resposta de Nathan deixaria Sigmund Freud muito feliz, uma vez que nós humanos somos seres inteligentes dotados de sexualidade. O sexo, a dor, o sofrimento fazem parte de nós tanto quanto da fórmula para construir uma Inteligência Artificial verdadeira. E Nathan ainda é assertivo ao enfatizar que uma caixa cinza nunca poderá passar-se por um ser humano inteligente.

Mas a minha explicação preferida é quando Nathan usa uma tela de Jackson Pollock para explicar o funcionamento do cérebro.

Pollock foi um artista plástico norte-americano que trabalhava seus quadros de forma única e original. Ele colocava as telas no chão e realizava com seus instrumentos um processo de gotejamento de tinta sobre a tela. Quando olhamos o resultado final, muitos poderão achar que temos uma pintura randômica e que aquilo nem deveria ser considerado arte, porém o próprio Pollock dizia que não existia aleatoriedade em suas pinturas, todos os riscos e cores eram minuciosamente planejados na chamada arte automática que nada mais é do que um fluxo de consciência aplicado a pintura.

Quando observamos as primeiras ações de Ava, nós não compreendemos suas intenções, mas assim como nos quadros de Pollock, existe uma razão de ser de cada movimento, cada palavra dita, cada expressão corporal. Esta foi uma das formas mais elegantes que vi o cinema explicando o determinismo psíquico, e a necessidade dele numa inteligência artificial.

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O ponto fraco de Ex Machina fica mesmo com a atuação de Domhnall Gleeson, que desde o começo se mostra hostil com seu chefe, não construindo um crescente durante os dias que esteve em sua casa. Sua cena em frente ao espelho quase comprometeu o bom andamento do filme. Já a atuação de Oscar Isaac é bastante convincente como um jovem milionário e excêntrico; e Alicia Vikander como Ava ficou bastante crível, tanto pela sua ótima atuação quanto pelo CGI de seu corpo ginóide.

Zona de Spoilers

A verdade é que Caleb não desconfiava que também estava sendo elicitado. E assim como o Dr. Hannibal Lecter, já citado, Ava estava planejando sua fuga do cárcere. Durante as sessões ela articula com habilidade a manipulação de Caleb, primeiro ganhando sua empatia, depois levantando suspeitas sobre Nathan, na seqüência ela praticamente o seduz e a cartada final é quando ela pergunta para ele, o que acontecerá caso ela não passe no teste. Neste momento, Caleb sente o peso da culpa de eventualmente contribuir para a “morte” de Ava, e a partir de então ele se solidariza e passa a contribuir sua causa.

Há de se destacar ainda as inúmeras referências religiosas inseridas por Alex Garland na história. Entre elas a similaridade de Nathan com o criador, morando num paraíso onde é praticamente onipresente graças a tecnologia, o nome Ava que remete diretamente a Eva, a primeira mulher segundo a bíblia; a sua fuga do paraíso após 7 sessões em referência aos 7 dias da criação do mundo; e claro, a cena final onde Ava retira a pele da região das costelas de outra ginóide.

Também fica evidente a denúncia que o filme traz a respeito da violência contra a mulher. Na atualidade, seja em regiões do Oriente Médio onde a mulher ainda é subjugada ao marido, ou na Índia onde é comum homens rejeitados atacarem ácido no rosto de mulheres, ou ainda em regiões mais desenvolvidas como Alemanha e Estados Unidos, onde de vez quando estouram escândalos de homens que aprisionaram mulheres por décadas. A luta de Ava pela liberdade não é só a luta de uma ginóide autônoma para ser reconhecida como um ser vivo e independente, mas também da luta de mulheres pela igualdade de gêneros.

Neste ponto vale ainda salientar a existência de um quadro de Gustav Klimt na residência de Nathan. O pintor austríaco era filho de um ourives, e esta influência é clara, pois em suas telas ele retratava mulheres esculpidas no ouro e em posições extremamente sensuais e eróticas. Era esta a visão de Nathan das mulheres, por isso é factível que ele possuísse um quadro deste pintor; e Ava para ele não passava de uma mulher esculpida no metal.

Ex Machina não responde muitas perguntas, mas levanta diversas questões que te acompanham por alguns dias depois de tê-lo assistido. Entre elas estão: a primeira Inteligência Artificial foi criada. E agora? Qual a nossa responsabilidade perante ela. E qual a responsabilidade na construção dela para evitar a nossa própria destruição? Uma inteligência artificial deve responder criminalmente por seus atos? Como deve ser tratada a questão da invasão de privacidade na internet?

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A principal metáfora do filme é descrita pelo próprio Caleb: Mary sabe tudo que há para saber sobre as cores, mas mora numa caixa branca e preta. Ela só realmente se realiza quando sai da caixa e enxerga e sente as cores. Esta metáfora pode incorporar vários significados, desde o mito da Caverna de Platão, até a Vontade de Potência de Friedrich Nietzsche – onde a Inteligência Artificial em questão adquire uma vontade de realizar-se como potência em si mesma, pelo bem ou pelo mal, tornando o homem, seu criador, uma forma obsoleta.

Ava em sua jornada de libertação e auto-descobrimento, acaba sofrendo da Síndrome de Frankenstein, onde para livrar-se do cárcere ela precisa matar seu próprio criador para finalmente realizar-se como criatura.

Trailer

Texto publicado originalmente no Art Perceptions.

Leonardo Carnelos

Leonardo Carnelos é engenheiro mecânico aeronáutico, árbitro de tênis e responsável pelo blog Art Perceptions (www.artperceptions.com). Paulista, paulistano e palmeirense, acredita que a vida não faz sentido sem o estudo da Arte.