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eXistenz

Texto de autoria de Ricardo Marques, do site Tudo em Geral

Tudo aqui é tão sujo, absurdo e… grotesco!”

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David Cronenberg: Tá aí um cineasta que muita gente fala mas cuja filmografia conheço pouco: antes de eXistenZ, só havia assistido Senhores do Crime e Marcas da Violência, que apesar de serem filmes excepcionais e os mais conhecidos dele pelo público comum, carregam pouco do estilo pelo qual o cineasta ficou conhecido no começo de sua carreira. eXistenz é um filme que funciona como o “meio-termo” da sua filmografia até então: traz um pouco do horror de seus primeiros trabalhos e o funde com ficção científica, ao mesmo tempo que faz uma crítica a uma indústria que hoje é a maior do entretenimento: a dos videogames.

Em um futuro próximo, quando os consoles de videogames são dispositivos orgânicos que podem ser ligados diretamente nas pessoas através de uma bio-porta (imagine um 2° ânus, só que mais acima), uma famosa designer de games (Jennifer Jason Leigh) tem o lançamento do seu eXistenZ, jogo de realidade virtual, sabotado por um assassino. Cabe a um traineé de Marketing (Jude Law) que nunca experimentou esses games de mantê-la a salvo, enquanto descobre esse magnífico e assustador universo.

Desde a primeira cena, Cronenberg já cria um link sensacional: a apresentação do game para os beta-testers (pessoas escolhidas para testar o produto) acontece numa igreja. Evidente a comparação entre Deus e as possibilidades que o jogador tem nos games de realidade virtual. E como toda religião, há os opositores, chamados de “realistas”, que acusam os games de deformarem a realidade.

É através de Ted Pikul que somos apresentados às possibilidades dessa nova realidade, onde os jogadores interpretam papéis de personagens que ainda desconhecem e acabam tendo os seus impulsos, como apontar arma para outra pessoa sem saber por qual motivo. E através dessas experiências, Ted começa a dificultar o real do virtual.

Um dos pontos altos do filme é a direção de arte, que deixa basicamente tudo nojento, inclusive a comida. E apesar do foco principal do filme não ser o horror,o gore está bastante presente em cenas como um dos consoles orgânicos sendo operado e sangrando.

O filme ainda conta com Ian Holm e Willem Dafoe em um personagem completamente caricatural. Aliás, uma das coisas que mais me chamou a atenção foram as fraquíssimas atuações e diálogos clichês e previsíveis. Frases como “Ai Deus, acho que ele morreu!” e “Acho isto repugnante, mas não consigo resistir”. Mas felizmente, essas falhas todas têm um propósito, que apesar de não parecer óbvio a primeira vista, dá pra entender depois das várias reviravoltas que o ato final proporciona ao espectador.

eXistenz é uma jornada em um universo bizarro através dos olhos de um estranho, mas acima de tudo é também uma crítica a como consumimos os jogos eletrônicos hoje. E apesar de ser um tema diversamente explorado, Cronenberg nos prende em seu estilo e surpreende através das suas reviravoltas finais.

Nota:

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