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Tudo Pelo Poder

GEORGE CLOONEY VIROU DIRETOR POR ACIDENTE. Há quase 10 anos, ele acabou assumindo o comando de Confissões de uma Mente Perigosa após a saída de Spike Jonze. Foi uma estréia modesta, é verdade. Mas foi o que abriu caminho para que dirigisse Boa Noite e Boa Sorte, que veio para provar que sim, ele leva jeito para a coisa.

Depois do fraco O Amor Não Tem Regras, Clooney se concentrou no que faz de melhor: atuar. Ainda bem. Tivemos Queime Depois de Ler, o pouco apreciado (mas genial) Os Homens Que Encaravam Cabras, uma volta à sala de emergência mais movimentada da TV e até animação em stop-motion dirigida por Wes Anderson.

Mas Tudo Pelo Poder era um filho sem pai. Passou de mão em mão, mudou de nome, de diretor, de elenco. Mais uma vez, um filme que aparentemente não era de Clooney foi parar em seu colo. E o resultado, desta vez, não só não foi modesto, como beirou o impecável. Este é um thriller político. É uma história sobre ideais e sonhos, mas também sobre gatos e ratos. O que dá o tom é o roteiro, escrito por Clooney a seis mãos (com Grant Heslov e Beau Willimon, autor da peça que originou o longa). O diálogo tem ritmo e é potente e certeiro.

Apesar de este ser um filme sobre um mundo em que as palavras têm grande peso – certamente, há belos discursos -, o mérito não é exclusivamente seu. Aliás, o que não é dito é ainda mais importante em pontos chave da trama – culminando em uma câmera que revela o protagonista, Stephen Meyers (Ryan Gosling), sentando em uma cadeira, olhando diretamente para a lente (consequentemente, para mim e para você). É um olhar que revela muito mais que palavras poderiam expressar.

Gosling é o personagem principal porque esta não é, de fato, uma história sobre poder. Meyers representa o lado bonito da política: o dos ideais. Ele é um jovem e ambicioso coordenador da campanha presidencial do democrata Mike Morris (Clooney), e que acredita no que faz. No entanto, Stephen ainda é ingênuo e descobre, aos poucos, que o mundo da política também significa concessões, traições e, vez ou outra, abrir mão dos princípios que se jura jamais abandonar.

Stephen vai de determinado e comprometido a desiludido e vingativo em um piscar de olhos. Envolvido em um jogo da primeira divisão, como ele mesmo define, o jovem é nada mais que um peão no tabuleiro e se vê obrigado a questionar as próprias convicções.

Além de Clooney, Ryan Gosling é cercado por atores igualmente competentes: Philip Seymour HoffmanPaul GiamattiMarisa TomeiEvan Rachel WoodJeffrey Wright e Max Minghella compõem o talentosíssimo elenco coadjuvante. Todos têm momentos excelentes durante o filme, recheado de boas performances, mas o fato é que Tudo Pelo Poder é de Gosling. Ele atrai, seduz, se impõe e diz muito com um simples olhar. Ora cândido, ora intenso, ele faz valer a indicação do Globo de Ouro (e, ao que tudo indica, ao Oscar).

Como todo bom thriller, Tudo Pelo Poder te prende desde o início. Mas, mais que entreter, o filme propõe o questionamento inevitável sobre os nossos próprios ideais políticos e o que esperamos de nossos líderes. Na atual conjuntura, o timing é perfeito.

Título original: The Ides of March
Direção: George Clooney
Produção: George Clooney
Grant Heslov
Brian Oliver
Roteiro: George Clooney
Grant Heslov
Beau Willimon
Elenco: Ryan Gosling (Drive)
George Clooney (Amor Sem Escalas)
Philip Seymour Hoffman (Dúvida)
Paul Giamatti (Almas a Venda)
Marisa Tomei (O Lutador)
Jeffrey Wright ( Contra o Tempo)
Evan Rachel Wood (Tudo Pode Dar Certo)
Lançamento: 23/12/2011
Nota: 

 

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