Crítica: Fragmentado (2016) | Cinema de Buteco
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Crítica: Fragmentado (2016)

O nome M. Night Shyamalan atrai fãs e haters, isso é inegável. Tudo porque a carreira do cineasta é controversa. Seu trabalho passou a ser elogiado pela crítica e pelo público em 1999, quando o suspense O Sexto Sentido surpreendeu plateias ao redor do mundo e concorreu ao Oscar em seis categorias em 2000, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Shyamalan tinha apenas 29 anos na época. Os filmes seguintes, Corpo Fechado (2000), Sinais (2002) e A Vila (2004), não alcançaram os mesmos números de O Sexto Sentido, mas fizeram bastante sucesso quando lançados.

Porém, a partir de 2006, a carreira de Shyamalan começou a desabar e muitos acreditaram que não haveria volta ou maneira de “recuperar” todo o brilhantismo que o cineasta mostrou anos antes. A Dama na Água (2006) é o primeiro de uma série de fracassos que o diretor acumulou em anos.

Sendo assim, Fragmentado representa uma esperança para os fãs de Shyamalan e a oportunidade do cineasta voltar a surpreender positivamente o público. É necessário reconhecer que o cenário escolhido poderia ter se tornado uma verdadeira armadilha, mas o filme mostra que valeu a pena esperar para ver o diretor voltar a desfrutar de toda a sua glória e ser reconhecido pela genialidade e competência.

Fragmentado conta a história de Kevin (James McAvoy, de Desejo e Reparação), um homem que sofre com um grande problema, o transtorno dissociativo de identidade (TDI). Ele vive com 23 personalidades que “se revezam” no controle da situação. Uma delas, Dennis, sequestra três garotas que não têm a menor ideia do objetivo do rapaz, que é muito forte, detalhista e sofre de transtorno obsessivo compulsivo. Enquanto Márcia (Jessica Sula) e Claire (Haley Lu Richardson) deixam explícito que estão em desespero e procuram descontroladamente por uma maneira de escapar usando a força, Casey (Anya Taylor-Joy) usa a inteligência para achar uma brecha no comportamento de seu algoz. Elas percebem o problema de Kevin quando este passa a mostrar diferenças de comportamento, incluindo as diversas expressões faciais, a maneira de se vestir e de falar. Mas as coisas pioram ainda mais quando Dennis passa a mencionar a Besta, que ele acredita estar “a caminho” e aumenta a tensão entre as garotas sequestradas e no espectador.

Os flashbacks ao longo do filme mostram os motivos que fizeram de Casey uma adolescente com dificuldades no convívio social.

Enquanto isso, a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley, a professora de educação física em Carrie, a Estranha, de 1976) tenta manter Barry, um aspirante a estilista, no controle das personalidades que se mostram mais hostis. Ela é a típica médica que acredita com todas as suas forças no seu trabalho, em suas teorias e, principalmente, na redenção dos pacientes mais difíceis. A propósito, o filme faz uma coisa muito interessante afetar o desenvolvimento do suspense, mostra o verdadeiro drama e a angústia de quem sofre com este problema tão específico e, ao mesmo tempo, um enorme campo de estudo e de descobertas.

É neste cenário que James McAvoy mostra toda a sua garra e talento. Com um poder impressionante de mostrar cada personalidade com trejeitos e expressões diferentes, ele conduz o filme com a jovem e também brilhante Anya Taylor-Joy (A Bruxa), que dá a sua personagem a dose certa de astúcia, medo e vontade de viver.

Os ângulos de câmera, somados ao magnífico trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora, dão a Fragmentado a capacidade de nos causar a sensação de claustrofobia e grande ansiedade. Os corredores por onde os personagens passam lembram um grande labirinto que ninguém sabe aonde vai dar.

Já nos momentos finais do filme, há uma referência ao filme Corpo Fechado, o que pode fazer com que os admiradores de Shyamalan vibrem com a certeza de que o cineasta não deixou a história de David Dunn pra trás.

Não podemos esquecer também do fator que grande parte do público aguarda para avaliar, a direção de Shyamalan. Ele se mostra, mais uma vez, brilhante e genial. Fragmentado é o filme que seus fãs estão aguardando há mais de uma década.

Graciela Paciência

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Stephen King, clássicos e cinema europeu. Suas metas de consumo estão (quase) sempre atrasadas, mas o importante é seguir em frente.