Crítica: Frank, de Lenny Abrahamson
Comédia Críticas de filmes

Crítica: Frank

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: o texto a seguir possui spoilers e deverá ser apreciado com moderação.

Crítica-Frank-Festival-do-Rio-2014-600x337 Crítica: Frank

OS FREQUENTADORES MAIS ASSÍDUOS DESSE BUTECO VIRTUAL CINEMATOGRÁFICO sabem muito bem do meu interesse por tramas musicais. O filme nem precisa ter uma linguagem brilhante, basta ter uma história cativante e personagens com os quais seja fácil se identificar (e uma trilha sonora inspirada, claro). Por vários motivos, incluindo a técnica e estilo brilhantes de Cameron Crowe, Quase Famosos é um dos meus prediletos. Assisto pelo menos uma vez por ano, e sempre fico maravilhado com aquela aventura jornalística de um fã da boa música. Mais recentemente, coloquei Searching for Sugar Man na minha lista pessoal de melhores filmes de 2013 (e se você não viu ainda, corrija urgentemente!). E agora, sou presenteado com essa coisa linda chamada Frank, do diretor desconhecido Lenny Abrahamson, que é nada mais que uma obra sobre o amor pela música e aqueles que tentam viver disso.

Evitarei aquele parágrafo maldito sobre a sinopse. Isso é perda de tempo para quem escreve e quem está lendo. Tipo esse parágrafo explicando a ausência do parágrafo sobre a sinopse.

Enquanto Quase Famosos mostrava um jornalista ingênuo vivendo sua primeira experiência profissional no meio de roqueiros malucos, Frank se prende à realização do sonho de um jovem tecladista que acredita possuir enorme talento musical. Jon (Domhnall Gleeson, do lindo Questão de Tempo) vive criando canções ao longo do seu dia a dia, e faz questão de usar as redes sociais para se mostrar como um compositor criativo e sempre produzindo algo. Um artista de Twitter, digamos assim. Por acaso, a oportunidade entrar para a banda de Frank (Michael Fassbender) caiu em seu colo, e ele a agarra como se fosse a sua única (e última) esperança de sucesso.

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Para quem já viveu esse mundo, já correu atrás de ter uma banda de rock e criar suas músicas, é fácil se identificar ou reconhecer Jon. Ele é aquela mente disposta a tudo pelo sucesso, independente disso significar passar por cima dos interesses das outras pessoas. Ele é o Roger Waters, saca? Aos poucos vai abrindo suas asas e tentando se apoderar de todo o trabalho criativo. Para isso, Jon começa a gravar vídeos clandestinos e postar no Youtube, o que acaba mexendo com o ego da banda, que de ilustres desconhecidos, passam a ser um fenômeno virtual graças ao interesse de Jon em ser um músico de sucesso.

A banda de Frank passa por uma transformação intensa, onde a possibilidade do sucesso demonstra afetar a todos os seus integrantes – exceto Jon. O longa-metragem toca exatamente nesse interessante ponto em que ser conhecido não é realmente o grande sonho daquele grupo, e que o megalomaníaco tecladista tentou fazer as vezes de produtor-artista, e se dar bem em cima do trabalho de outros. Aqui sim, a tal da “divergência criativa” tem fundamento. A sequência de encerramento da obra mostra perfeitamente essa diferença de interesses, especialmente no olhar de Jon para seus ex-parceiros. Ele compreende que seu sonho nunca passará disso, e que está fadado a aceitar sua vida comum.

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Michael Fassbender é o principal nome do elenco e oferece uma atuação marcante baseada quase que exclusivamente em seus movimentos corporais e tom de voz. Vale até citar o trabalho de Scarlett Johansson, em Ela, de Spike Jonze, onde a atriz mostra seu talento apenas com a força de sua entonação vocal. Fassbender interpreta o genial artista Frank, que usa o tempo inteiro uma enorme cabeça de madeira, e cujo perfeccionismo prende todos os integrantes da banda numa cabana até conseguirem o som perfeito. Em muitos momentos percebemos que ele é calmo, extremamente sensível, e até mesmo inseguro em relação ao seu trabalho. A partir do momento em que a pressão começa a ser insuportável, seus passos se tornam mais duros e Frank se mostra cada vez mais travado. Fora o show de sutilezas, Fassbender ainda emociona nos momentos finais, durante a execução de uma canção improvisada, que mostra a sua verdadeira natureza artística.

Com uma trilha sonora original, e muito divertida, Frank se torna facilmente em um dos destaques da comédia em 2014. A banda é estranha, formada por personagens verdadeiramente surreais (Maggie Gyllenhaal que o diga, como a louca cheia de ódio), e com um processo criativo capaz de arrancar gargalhadas do espectador. Ao conseguir misturar bem o ambiente de um cara apaixonado por música no meio de um grupo já formado, e trabalhar com interpretações incríveis de seus protagonistas, o cineasta Lenny Abrahamson acertou em cheio na sua nova empreitada, e criou um filme apaixonante. Não apenas para os amantes da música, claro.

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[tresemeia]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.