Crítica: Leviatã, de Andrey Zvyagintsev - Mostra de SP
Críticas de filmes Drama Mostra de SP 2014

Crítica: Leviatã – Mostra de SP

Leviatã Crítica - Mostra de SP

 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #23

Leviathan-First-600x337 Crítica: Leviatã - Mostra de SP

Durante os primeiros minutos de Leviatã, filme que venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano, acompanhamos a luta que o estourado Nikolai (Serebryakov) trava quando o prefeito (Madyanov) de sua cidade passa a cobiçar o seu terreno, a princípio fazendo ofertas pacíficas a fim de adquiri-lo mas não demorando muito para se mostrar disposto a chantageá-lo e a usar métodos criminosos para alcançar seus objetivos. Assim que o sujeito contrata o advogado Dmitri (Vdovichenkov) para defendê-lo, porém, o roteiro escrito pelo próprio diretor Andrey Zvyagintsev em colaboração com Oleg Negin parece mudar de foco e, sem deixar de retratar o dia-a-dia ilícito do político, passa a abordar também o relacionamento extra-conjugal vivido pelo por aquele homem com a mulher de seu cliente, a entristecida Lilya (Lyadova).

As maiores críticas que o roteiro deverá receber, portanto, dizem respeito ao fato de Zvyagintsev (cujo nome é a punição que estamos recebendo por termos reclamado por tanto tempo de pronunciar e digitar o de Apichatpong Weerasethakul) e Negin tentarem usar os 140 minutos de seu filme para abordar simultaneamente uma série de conflitos distintos em uma estratégia que normalmente resulta em fracasso – e se considerarmos ainda que os roteiristas se propõem a utilizar suas subtramas como analogias de dilemas maiores vividos pela sociedade russa e pela espécie humana como um todo, partindo de temas discorridos no livro-homônimo lançado por Thomas Hobbes em 1651 e na história de Jó narrada em Gênesis para desenvolver a sua tese, a pecha de “presunçoso” será naturalmente empregada à exaustão nas discussões a seu respeito – uma crítica que não deixa de ter sua razão.

Mas apesar de soar desconjuntado e pretensioso em diversos momentos (quanto ao último adjetivo, sempre digo que prefiro os filmes pretensiosos demais aos pretensiosos de menos), Leviatã costura uma teia de relações suficientemente densa e complexa que, com um surpreendente senso de humor negro (“Mãe, o que é o caos?”), funciona como um microcosmo representativo de uma sociedade corrompida que se acostumou a associar seus políticos a atividades mafiosas e cuja frieza – tanto a climática quanto a emocional – propicia não só a solidão e o isolamento, mas também a violência e o cinismo – e é claro que essa visão pessimista que Zvyagintsev apresenta de seu próprio país também paga o seu preço, criando uma série de personagens moralmente dúbios em quem jamais conseguimos confiar de fato (mesmo Nikolai, que em tese é o protagonista da história, mostra-se um marido insensível, um cidadão relapso e um pai extremamente agressivo.

Como se não bastasse comentar a corrosão política e emocional de seu país, Leviatã é também mais um dos vários e vários filmes que têm chegado de diversas cinematografias distintas à Mostra de São Paulo nos últimos anos e que retratam o colapso financeiro sofrido por praticamente todos os países do velho continente, girando em torno de personagens que precisam readaptar suas vidas a condições mais simples e cuja insegurança em um país em que os fantasmas da fome e do desemprego começam a circular acaba se refletindo também em suas relações pessoas e sociais – e é interessante (e assustador) notar como cenas como aquela em que os personagens visitam sua provável nova residência e encontram uma edificação estreita, surrada e descascada se tornaram uma constante nos projetos recentes que tem vindo de Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Turquia, Rússia e até mesmo França.

Mergulhado em um cinza sufocante que é criado não apenas por seu céu constantemente nublado e por suas paisagens cobertas pela neve, mas também pela fotografia opressiva de Mikhail Krichman, Leviatã leva o espectador a uma sensação de desconfiança e paranoia constantes, transformando até mesmo uma tarde supostamente descontraída com a família e os amigos em frente ao mar em um exercício de tensão e insegurança.

Se o longa de Zvyagintsev merecia mesmo ser premiado por seu roteiro, eu não saberia dizer, mas que a ambição do projeto resulta em uma experiência da qual não se pode sair intelectualmente ileso, eu não tenho a menor dúvida.

Leviathan-First-600x337 Crítica: Leviatã - Mostra de SP

Leviatã (Leviathan, Rússia, 2014). Dirigido por Andrey Zvyagintsev. Escrito por Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin. Com: Elena Lyadova, Vladimir Vdovichenkov, Aleksey Serebryakov, Roman Madyanov, Anna Ukolova, Sergey Pokhodaev, Kristina Pakarina, Aleksey Rozin e Lesya Kudryashova.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.