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Filme: Mad Max: Estrada da Fúria

Estrada da Fúria transforma Tom Hardy e Charlize Theron em heróis de um futuro apocalíptico, além de comprovar que um vovô de 70 anos chuta traseiros quando se trata de filmes de ação de qualidade.

Mad Max Estrada da Furia

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA MARCA O RETORNO DO VELHO MAX, originalmente interpretado por Mel Gibson em três filmes produzidos na década de 1980, e que está de volta agora na pele de Tom Hardy. No entanto, Max é conduzido ao posto de “coadjuvante de luxo”, já que quem rouba a cena e conduz toda a história é a Imperatriz da Fúria (Charlize Theron). Com direção e roteiro de George Miller, o longa-metragem é verdadeiro sinônimo de qualidade se tratando de cinema, especialmente no seu gênero.

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Curioso observar as reações do público para a quarta entrada da série nos cinemas. Aparentemente, um grupo que luta pela defesa dos direitos dos homens (!) afirmou que Estrada da Fúria engana o público e faz apologia ao feminismo (!!), que o protagonista não podia receber ordens de uma mulher (!!!) e que Hardy mal fala ao longo do filme (!!!!). Decidiram promover um “boicote”, que obviamente foi um tiro pela culatra. Mad Max, não se engane, tem um target bem definido para o público masculino – independente de ter uma protagonista feminina. Com essa pirraça desses “machos”, várias mulheres (seja de pirraça, curiosidade ou whatever) decidiram investir o seu dinheiro com a obra de George Miller, que dificilmente atrairia a atenção desse público em uma situação diferente. Aliás, verdade seja dita sobre os argumentos dos rapazes: a) direitos dos homens?; b) apologia ao feminismo por ter a talentosa e gata pra caralho Charlize Theron como protagonista?; c) esse povo que não sabe “receber ordens” não tem ideia do que estão perdendo; d) Essas pessoas sequer viram aos outros filmes da série para saber que Max realmente é um cara de poucas palavras?; e o mais curioso é que existe uma cena, num deserto, no momento em que Max encontra com a Imperatriz Furiosa, que ele dá de cara com a visão afrodisíaca de cinco garotas seminuas se banhando no sol com uma mangueira. Meu velho! Isso é um detalhe sutil feito para garotos! Deveriam calar a boca antes de falarem sem conhecimento de causa.

Mad Max feminismo cinto de castidade

(Teoricamente, se existir alguma humana em defesa aos direitos das mulheres está na cena abaixo, quando as garotas arrancam seus peculiares cintos de castidade (David Cronenberg curtiu isso), como se fosse uma maneira de dizer: estamos livres das garras do homem, nosso corpo, nossas regras, e essas coisas. Pena que o que deveria ser aplicado apenas na ficção se torna assunto de discussão no mundo real, em que as pessoas simplesmente não conseguem respeitar a liberdade uma das outras, independente do gênero. Cada um faz o que quiser e segue a vida!)

Detalhes externos a parte, Estrada da Fúria segue a mesma fórmula dos três filmes anteriores: não existe uma fórmula. Max sempre aparece no meio de uma confusão aleatória e precisa se virar para sair com vida dela. E nisso, a história acaba destacando sempre os coadjuvantes (embora nunca tenha acontecido de uma personagem ter tanto destaque quanto no caso da Imperatriz – e isso está bem longe de ser considerado como demérito da obra) e criando vários conflitos para somar na experiência do espectador. Convenhamos: filmes de ação que se prezem valorizam a narrativa, a maneira de apresentar a história, acima da própria. O roteiro não deixa de ser interessante ao abordar um tema bem atual: muito poder concentrado nas mãos de poucos, no caso representado na pele do vilão Joe Imortal, que controla a distribuição de água num futuro apocalíptico. Só que essa questão política pouco importa para Miller. A sua intenção é produzir sensações extremas e viscerais para arrancar o fôlego do seu público. E se a ação do original e sua continuação já eram extremamente bem feitas, mesmo produzidas em 1980 e 1981, acompanhar a evolução técnica do diretor com o uso bem vindo do 3D é realmente de arrepiar.

Guitarrista maluco de Max Max
(Aliás, seria um crime eu deixar de mencionar isso: o universo de Miller é tão surreal que ele modernizou a ideia daqueles homens que acompanhavam os guerreiros com tambores e gaitas antes de grandes batalhas: no verdadeiro exército de veículos turbinados – uma versão em quatro rodas dos navios – há um carro em especial que transporta um sujeito muito louco que usa um instrumento que combina guitarra e baixo, e fica tocando riffs insanas e angustiantes, semelhantes ao tema de Tubarão, para fazer toda a preparação psicológica para a grande batalha. Sensacional é pouco para descrever esse maluco.)

Estrada da Fúria combina momentos de calmaria para desenvolver os dramas internos de seus personagens com sequências de ação que devem ter deixado Michael Bay envergonhado por todas as vezes que tentou “homenagear” (para não dizer copiar) o estilo de George Miller, que já está na casa dos 70 anos de idade. O diretor sabe dar um “Redbull batizado” para as suas cenas de ação, que nos dão a impressão de que a câmera entrou no seu modo turbo. O curioso é que, ao contrário da confusão visual presente nas obras de Bay, o público não se perde e consegue entender perfeitamente tudo que está acontecendo na tela. E o sujeito não precisa nem entrar num outro tipo de “viagem” para apreciar toda a loucura. Com isso fica certo que para os fãs do cinema de ação, Mad Max: Estrada da Fúria é um verdadeiro marco que seguirá sendo imitado até ganhar uma nova sequência.

Miller é bem fiel com a essência da série. Um hábito comum do cineasta é convidar seus atores para participar das continuações interpretando personagens completamente diferentes. Por exemplo, o ator Hugh Keays-Byrne viveu o vilão Toecutter no filme original, em 1980, e agora deu vida ao Joe Imortal, inimigo a ser combatido em Estrada da Fúria. Bruce Spence também participou de dois filmes e espera-se que essa tradição continue no futuro, com uma eventual continuação. Com isso, para os fãs da Imperatriz Furiosa fica o recado de não criarem muitas esperanças de um possível retorno, já que as chances disso acontecer, seguindo a mitologia da franquia, são mínimas.

Mad Max Vilao

Como disse, Estrada da Fúria transforma nosso protagonista em um coadjuvante de luxo. E tudo bem, pois não importa muito a sua origem ser contada ou explicada mais uma vez. Ele funciona bem, no melhor estilo Clint Eastwood na trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, como o “cara silencioso” que resolve os problemas da maneira que for necessária (como na sequência genial na qual Max parte para uma missão impossível e retorna logo depois coberto com o sangue dos seus inimigos – detalhe: o filme não mostra o que aconteceu ou como aquele sangue foi parar no corpo do herói. Isso reforça a sua força e mitologia). O interessante mesmo é sacar que o roteiro brinca não apenas com política, mas também com religião: Joe Imortal faz uma verdadeira lavagem cerebral em seus seguidores, que passam a agir como autênticos homens-bomba que acreditam que a sua morte irá ajudar na sua causa. Uma verdadeira jihad futurista, digamos assim. Nux (Nicholas Hoult) é um desses homens, auto-proclamados de “aguardados”, que passa por momentos ruins ao perceber que estava seguindo um falso profeta e lutando pelo lado errado.

Mad Max: Estrada da Fúria é possivelmente o filme de ação norte-americano mais bem dirigido desde Dredd, de Pete Travis. Mas no mesmo nível de qualidade dos dois excelentes longas da série Operação Invasão, de Gareth Evans. O que diferencia essa obra é a genialidade, coragem e inventividade de seu diretor. George Miller prova que a idade avançada não o impede de fazer ação capaz de agradar pessoas de todas as idades, e justamente por um grupo idiota com uma polêmica imbecil, todos os gêneros. Certamente, um dos principais longas da temporada.

Mad Max: Estrada da Fúria (Max Max: Road to Fury, 2015) Escrito e dirigido por George Miller. Com Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult

Ps: para os curiosos, meu ranking pessoal é Mad Max: Estrada da Fúria; Mad Max 2; e Mad Max. Mad Max 3 – Além da Cúpula do Trovão deveria ser apagado da história. É uma viagem muito errada de quem viu Peter Pan e O Retorno de Jedi enquanto escrevia o roteiro. Qual o ranking favorito de vocês?

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