Crítica: Mapas Para as Estrelas | Cinema de Buteco
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Crítica: Mapas Para as Estrelas

Mapa-para-as-Estrelas-838x558 Crítica: Mapas Para as Estrelas

Quando assisti The Bling Ring em 2013, adorei como Sofia Coppola fez uma crítica à sociedade consumista e a falta de limites de jovens no mundo atual, mais especificamente nos Estados Unidos (baseado em fatos reais). Agora, chegou a vez da David Cronenberg fazer algo parecido em relação à Terra do Tio Sam, ao fazer uma sátira a Hollywood em Mapas Para as Estrelas (Maps to the Stars, 2014). Ousado e chocante, com deliciosos toques de humor e performances geniais de Julianne Moore e Mia Wasikowska, trata-se de um filme imperdível sobre fama e família.

Assim que os créditos começaram a rodar, fiquei alguns segundos na cadeira tentando me recuperar do que havia visto nas últimas duas horas. No caminho pra casa, continuei absorvendo, depois do almoço e cá estou eu escrevendo esta crítica no fim do dia. Conheço Cronenberg de outros longas e gostei de como ele adotou Robert Pattinson e Sarah Gadon em seus últimos trabalhos, dando-lhes papéis interessantes, os quais lhes dão a capacidade de mostrar o quão bons podem ser se bem dirigidos e nos papéis certos. Ambos estão coadjuvantes aqui e não deixam de fazer um bom trabalho, mas o que mais me impressionou na produção foram as atuações magníficas de Moore e Wasikowska.

Escrito por Bruce Wagner, o roteiro envolve diversos personagens, todos conectados de alguma maneira. Temos Agatha (Wasikowska), jovem que chega a Los Angeles e, graças à “amizade” com Carrie Fisher – até parece, mas ok, ficção -, consegue um emprego como assistente da decadente e traumatizada atriz Havana Segrand (Moore). Esta, por sua vez, trata o abuso que sofreu da mãe, a também atriz Clarice Taggart (Gadon), com o psicólogo Stafford Weiss (John Cusack), cuja família está longe de ser saudável. Christina (Olivia Williams) é sua esposa, além de ser responsável pela carreira do filho de 13 anos, Benjie (Evan Bird), protagonista de uma franquia de enorme sucesso no mundo e que acaba de sair um centro de reabilitação.
O enredo explora os demônios de cada personagem, seja com Havana tentando se livrar do fantasma da mãe e conseguir estrelar a adaptação de um clássico que ela fez no passado, seja com Benjie enfrentando fantasmas de crianças e dando shows de rebeldia e arrogância adolescente diante dos outros. Agatha também tem os seus problemas e encontra no ator/motorista Jerome (Pattinson) um amigo e possível romance ao chegar na glamorosa cidade de L.A.

Cronenberg discute na telona o mundo não tão glamoroso de Hollywood, expondo jogos de política, falsidade, drogas e sexo, os quais envolvem tanto artistas experientes quanto novos (menção de nomes como Demi Lovato, Oprah e Harvey Weinstein estão no meio). A questão da família também aparece, mas talvez de um modo que nem todo mundo goste de ver. Isto porque a relação entre Havana e Clarice era terrível, algo que se repete com Benjie e seus pais, e ver um abismo tão grande entre parentes é difícil. E como isso é retratado na película não ajuda em nada: alucinações, gritarias, brigas e tragédias aparecem ao decorrer da história.

O que mais gostei é que o filme nos deixa ligados o tempo todo; é tanta coisa acontecendo, tantos personagens interessantes, que você mal espera para ver o que vai acontecer na cena seguinte. Rimos, ficamos assustados, somos surpreendidos e, o mais importante, os diálogos e imagens nos contam com clareza o passado de cada um e como chegaram até ali, o que esclarece muito o que vemos. E, sendo sincera, uma boa explicação é extremamente necessária para compreendermos Mapa Para As Estrelas. Como o roteiro inicia e termina também me chamou a atenção, pois funciona como um ciclo; depois que entendemos tudo, a última cena se encaixa perfeitamente.

Moore está impecável em Still Alice e mereceu o Oscar por tal papel, mas devo dizer que prefiro muito mais sua performance no filme de Cronenberg. Ela está engraçada, dramática, assustadora e falsa e como ela administra tantas facetas é impressionante. Provavelmente em função do tom crítico do roteiro em relação à Hollywood e seu conteúdo demasiadamente pesado, a Academia preferiu reconhecê-la pela personagem com Alzheimer. Wasikowksa me encantou com a maneira como deu vida à Agatha, um jovem imatura e misteriosa que tem um destino previsível, mas que, mesmo assim, deixa-nos com o queixo caído.

Mapa Para As Estrelas é uma saga eletrizante e que não poupa o público de críticas e loucuras em nenhum momento. Um filme duro ou, como diria um amigo cinéfilo, “um soco no estômago”. Um soco que não nos mata, mas, definitivamente, um soco que deixa marcas.

Mapa-para-as-Estrelas-838x558 Crítica: Mapas Para as Estrelas

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.