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Crítica: O Destino de Júpiter

Os irmãos Wachowski apresentam para o público sua visão do clássico conto de fadas Cinderela.

o destino de jupiter mila kunis

A MELHOR PARTE DE SE ACOMPANHAR A TRAJETÓRIA DE UM DIRETOR (no caso, dois) é poder reconhecer ecos de trabalhos anteriores suas nas obras mais recentes. Em O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015), Andy e Lana Wachowski revisitam ideias presentes em Matrix e no subestimado A Viagem, ao mesmo tempo em que criam um verdadeiro conto de fadas sci-fi. Se não chegam a ser geniais, pelo menos conseguem acertar a mão ao oferecer um produto de entretenimento curioso e divertido. Ainda que a maioria do público, por mais exigente que seja, prefira optar pelo caminho mais fácil, aqueles que mergulharem na proposta dos Wachowski certamente se sentirão recompensados.

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Quando afirmo que O Destino de Júpiter é um conto de fadas sci-fi é por conta da premissa básica: assim como acontece em Cinderela, temos uma protagonista insegura e insatisfeita com a sua vida. De repente, o destino sorri e ela se descobre uma pessoa importante e com uma grande responsabilidade. Jupiter (Mila Kunis) passou boa parte de sua vida como uma faxineira que sofria para limpar os banheiros da casa de seus patrões. Até que conheceu o extraterrestre vivido por Channing Tatum e descobriu que é a reencarnação de uma poderosa rainha de um planeta distante, que por acaso é dominado por um tirano disposto a acabar com a vida na Terra. Além de Cinderela, outra história famosa que ganha nova roupagem no longa-metragem é Peter Pan, por conta da maneira como o personagem de Tatum voa por Chicago e da sua própria origem.

o destino de jupiter

Sean Bean (O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel) e Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo) completam o elenco. Aliás, só de curiosidade, reparem no desempenho de Redmayne como o vilão Balem Abrasax. Na posição de um grande rei, ele nos faz lembrar imediatamente do Xerxes interpretado por Rodrigo Santoro, em 300. Ambos os personagens se auto-proclamam como deuses, e possuem em comum uma forte inclinação feminina. No caso de Balem, isso é ainda mais forte, já que o personagem dá um verdadeiro chilique quando se encontra diante Jupiter e começa a relembrar dos tempos em que sua bela mamãe estava viva.

Chicago é provavelmente a cidade favorita dos cineastas. Especialmente quando se trata de quebrar a porra toda. Michael Bay destruiu uns duzentos prédios da cidade com a franquia Transformers, e os irmãos Wachowski realizaram um caos completo na área. E muito bem feito, diga-se de passagem. Com uma direção precisa e efeitos especiais muito bem trabalhados, O Destino de Júpiter possui diversas sequências de ação eletrizantes que não funcionariam tão bem nas mãos de cineastas menos acostumados a peripécias digitais.

Falando das homenagens presentes no roteiro, podemos lembrar das seguintes: na introdução existe uma breve evocação do clássico da literatura Noites Brancas, de Fyodor Dostoievski; o planeta dos Abrasax é praticamente idêntico a Naboo, de Star Wars: Episódio 1 – A Ameaça Fantasma; e as referências mais óbvias são as já citadas Cinderela e Peter Pan. Ainda há espaço para incluir discretamente as ideias filosóficas e espirituais presentes em A Viagem e para a miopia humana em relação a sua própria existência, coisas bem discutidas em Matrix.

Como disse no começo da crítica, O Destino de Júpiter possui profundidade para os espectadores dispostos a refletirem e comprarem a ideia do roteiro. Transformar Cinderela em um sci-fi não é uma tarefa das mais simples, e mesmo para os cinéfilos que citarem Sucker Punch, de Zack Snyder, a obra dos irmãos Wachowski é muito superior tanto nos efeitos especiais quanto no roteiro, além de não nos deixar entediados como no filme de Snyder. Com uma proposta bem leve e sem deixar de lado a ação, O Destino de Júpiter acaba se saindo como uma grande surpresa.

Poster O Destino de Jupiter
O Destino de Júpiter
(Jupiter Ascending, 2015) Escrito e dirigido por Andy e Lana Wachowski. Com Mila Kunis, Channing Tatum, Sean Bean, Eddie Redmayne

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